Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
DUAS GRANDES FÍSICAS:
MARIA CURIE e LISE MEITNER



Uma tarde no laboratório de Lise Meitner e Otto Hahn.

Continuando nosso passeio pelos primórdios da física nuclear topamos, obrigatoriamente, com Lise Meitner. Nascida na Viena de 1878, Lise Meitner, desde novinha se apaixonou pela física assistindo as aulas do grande Ludwig Boltzmann. Fez seu doutoramento mas, quando tentou um posto na universidade, verificou que mulheres não eram aceitas como pesquisadoras. Quando Boltzmann se suicidou, Lise ficou tão abalada que decidiu deixar a Áustria. Inicialmente, tentou se mudar para Paris, onde pretendia trabalhar com a já famosa Maria Curie, outra de suas admirações. Mas, ao que parece, os Curie só gostavam de trabalhar em família e ela não foi aceita. Mudou-se, então, para Berlim onde, pouco depois, iniciou uma colaboração com o químico Otto Hahn, no Instituto Kaiser Wilhelm, que rendeu muitos frutos e durou mais de 30 anos. Durante a primeira guerra mundial, Lise trabalhou como radiologista em um hospital militar de austríaco. Curiosamente, sua heroína Maria Curie fazia o mesmo no outro lado.
Em 1917, Hahn e Lise descobriram um novo elemento, o proctoactínio. A partir daí, o prestígio dos dois cresceu e Lise Meitner foi nomeada diretora do Departamento de Física do Instituto. Em 1926, ambos estavam na Universidade de Berlim e mantinham intensa colaboração. No início da década de 30, souberam dos experimentos de Fermi em Roma, bombardeando núcleos com neutrons e começaram, juntamente com o químico Fritz Strassmann, a trabalhar nessa nova linha de pesquisa.


Otto Hahn e Lise Meitner no laboratório.
Em 1936, visitei Berlim a convite de meu amigo arquiteto Horst Strohmeyer. Lá, uma bela tarde, sabedor de meu interesse pela física, ele me levou a conhecer o laboratório onde Lise Meitner e Otto Hahn pesquisavam a radioatividade. Lise foi simpática mas retraída e quase não conversamos. Mas, Hahn revelou-se um sujeito falante e bem-humorado, dedicando mais de duas horas a nos explicar seu trabalho e dar suas opiniões sobre a situação política da Alemanha.
Por várias vezes, deixou clara sua aversão a Hitler e seus capangas nazistas. Achei até curioso pois alguns assistentes do laboratório eram visivelmente adeptos do nazismo, alguns até ostentando suásticas nas camisas. Mas, isso não impediu Hahn de falar o que pensava. Falou um pouco do Brasil e de Villa-Lobos, que admirava e do qual conhecia algumas Bachianas. Combinamos nos encontrar novamente para uma pequena sessão musical mas isso nunca aconteceu.
Do ponto de vista profissional, achei interessante a simplicidade do equipamento que Lise Meitner usava. Praticamente, cabia todo em uma bancada. Poucos anos depois, impulsionada pelas descobertas de Meitner e Hahn, além de outros como Fermi e Bohr, a física nuclear virou assunto estratégico, e os laboratórios modestos foram substituídos por gigantescos reatores. Sem falar nas fábricas de bombas que surgiram em vários países.

Bancada de Lise Meitner.
Nos anos seguintes à minha visita, a situação de Lise Meitner em Berlim ficou muito perigosa e ela teve de fugir, em 1938. Ficando lá acabaria, certamente, em um dos fornos crematórios de Hitler. Depois de passar pela Holanda, estabeleceu-se na Suécia. Já estava lá quando aconteceu o fato científico mais marcante de sua vida, cheio de lances dramáticos e implicações políticas e militares. Vou contar essa história mas, antes, quero preparar o terreno descrevendo o trabalho de Lise e Hahn com os materiais radioativos.

Apostila 7: Bombardeando núcleos com neutrons.

Apostila 8: Lise Meitner, a fissão nuclear e o prêmio Nobel.