Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
DATAÇÃO ISOTÓPICA
Como ler os relógios nucleares



Uma visita a um laboratório de carbono-14.

A física nuclear, a radioatividade e os isótopos parecem atrair as mulheres que se interessam por ciência. Maria e Irene Curie, Lise Meitner, Maria Mayer, são alguns nomes de mulheres que brilharam nessa seara.

Aqui no Ceará, a física dos isótopos e da datação isotópica é praticada pela professora Marlúcia Santiago. Para ver de perto o trabalho dessa pesquisadora, me conformei a ir até Fortaleza, coisa de meu desagrado (as únicas cidades que amo são Sobral e Viena). Valeu a pena o desconforto. Fiquei conhecendo um trabalho científico de alta qualidade e relevância para nós do Nordeste brasileiro.
A seguir, no melhor estilo de reportagem dos grandes jornais, reproduzo trechos de minha entrevista com a Prof. Marlúcia. Como não uso recursos tipo gravador, as frases estão como ficaram na minha (ainda perfeita) memória.
Fifi: Que tipo de datação isotópica vocês usam?
Marlúcia:Atualmente, usamos exclusivamente a datação por carbono-14. Antes, usávamos também o trício, mas, a quantidade desse isótopo na atmosfera do hemisfério sul está baixa demais para dar bons resultados.

F: Como é medida a atividade do carbono-14 em seu laboratório?
M: Usamos contadores proporcionais a gás e contadores de cintilação líquida. No primeiro caso, as amostras são transformadas em gás carbônico ou acetileno, usando linhas de vácuo. Na cintilação líquida, o acetileno é transformado em benzeno.

F: O que vocês estudam com essas técnicas?
M: Nosso maior interesse é estudar as reservas de água do Nordeste, como elas se distribuem, qual a idade das águas subterrâneas e como os aquíferos se interligam.

F: E como é que o carbono-14 entra nesses estudos?
M: A atmosfera tem gás carbônico e a água superficial dos rios e lagoas absorve esse gás. Na água, o gás carbônico vira bicarbonato dissolvido. Em uma amostra de água superficial, a proporção de carbono-14 é a mesma da atmosfera. Quando a água está presa em reservas subterrâneas, os átomos de carbono-14 que ela possui vão gradualmente se transformando em nitrogênio e não são repostos. Portanto, a atividade do carbono-14 em águas "velhas" vai diminuindo com o tempo e dá uma medida de quanto transcorreu desde que a água ficou confinada.

F: Legal! É praticamente o mesmo método usado para datar madeiras e tecidos orgânicos, como inventado por Libby. E quais são os resultados mais importantes que vocês obtiveram?
M: Um deles foi descobrir que houve uma forte mudança climática no Nordeste. Há cerca de 12.000 anos antes de hoje, chovia muito no Nordeste e a temperatura média era uns 6oC mais baixa do que é atualmente. Durante esse período, formou-se a segunda reserva de água subterrânea do Brasil, que é a bacia sedimentar do Maranhão-Piauí.

F: Então, já fez frio no Piauí!
M: Sim. E o que temos agora é que essa reserva subterrânea é grande porém finita. Como o armazenamento dessa água ocorreu em condições climáticas bem melhores que as atuais nessa região, as reservas não são mais abastecidas. A água nelas é toda antiga, o que chamamos de paleoágua. Se forem retiradas indiscriminadamente, vão fatalmente se esgotar.

F: E aqui no Ceará, o que vocês descobriram?
M: Bem, no Cariri as águas também são paleoáguas, logo merecem o mesmo cuidado que as águas do Piauí.
Em outras áreas do estado, vimos que as águas muito salinizadas do cristalino, que corresponde a 75% da área do Ceará, são águas recentes. Algumas pessoas pensavam que essas águas, por serem salgadas, eram provenientes de antigas intrusões marinhas. Nossa pesquisa mostra que isso não ocorreu.

F: Isto é, o mar não virou sertão.
M: É mesmo. Outro resultado interessante foi detetar uma grande perda de vazão no rio Jaguaribe. Esse rio, que era temporário, foi perenizado pelo açude Orós. Pois acontece que, em um trecho de uns 50 quilômetros, perto de Limoeiro e Russas, o rio Jaguaribe perde uma quantidade de água equivalente ao consumo de Fortaleza. Fizemos um acompanhamento dessa água através da datação isotópica e descobrimos que ela se esvai por infiltração e acaba alimentando o arenito do Açu.

F: Em outras palavras, o Rio Grande do Norte está gatunando nossa preciosa água.
M: (ri) É isso mesmo!

F: E quais os projetos futuros da equipe?
M: Pretendemos identificar as condições das águas armazenadas na formação Mauriti, no sul do estado, onde está sendo implantado um projeto de agricultura irrigada utilizando essas águas.

F: Vocês não pretendem usar o carbono-14 para o uso tradicional de datar tecido orgânico?
M: Sim, estamos desenvolvendo uma metodologia para datação de ossos. Nesse tipo de determinação de idade é necessário retirar o colágeno da amostra e transformá-la em acetileno que será usado no detetor.


Fiquei muito feliz de ver a qualidade e importância da pesquisa feita por essa conterrânea e sua equipe. Meu neto Felipe sugeriu que eu mandasse uma amostra da água de nosso poço para saber se é mais nova ou mais velha que eu.


Nota do editor: Mais informações sobre o grupo de carbono-14 do Departamento de Física da UFC podem ser obtidas através do e-mail: marlucia@fisica.ufc.br

Apostila 8: Quando foi que a mulher chegou ao Piauí?