Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
AS MITOCÔNDRIAS

Mil e uma noites mitocondriais.

Até uns dois bilhões de anos atrás, a vida na Terra era apenas microscópica, representada por bichinhos de uma só célula, as bactérias, e, talvez, bichinhos ainda menores, os vírus. Esses bichinhos, como sabemos, sempre se deram bem, tanto assim que ainda hoje proliferam por aqui.

As bactérias, como fazem ainda hoje, alimentavam-se colhendo material do meio em que viviam. Ocasionalmente, uma bactéria atacava outra. Quando isso acontecia, uma das duas, ou ambas, se dava mal. A que era engolida podia ser digerida pela outra, sem dó nem piedade. O contrário talvez fosse mais freqüente: a engolida liberava suas armas químicas dentro da maior, comia tudo que podia e depois abandonava a carcaça da infeliz. Tudo isso acontecia e ainda pode acontecer hoje.

Mas, em algum dia do passado distante, algo extraordinário ocorreu. Uma terrível bactéria atacou e penetrou em outra, só que a atacada devia se chamar Sherazade, pois conseguiu a proeza de sobreviver sem ser digerida. De alguma forma, ela convenceu a outra que seria mais vantajoso, para ambas, não se hostilizarem e conviverem em harmonia, naquilo que os biólogos chamam de simbiose.

E, realmente, o acordo deu tão certo que é por isso que estamos nós aqui, conversando sobre esses temas biológicos. Sem essa simbiose bem sucedida, é possível que a Terra continuasse, ainda hoje, a ser habitada apenas por seres unicelulares.

Com sua lábia incrível, a danadinha da bactéria conseguiu não apenas se manter viva mas ainda convenceu a outra a assumir as tarefas de empregada doméstica, processando os alimentos e gerando a energia necessária para suprir as necessidades da casa que dividiam. Em troca, providenciava esses alimentos que retirava do meio ambiente. A ex-atacante aceitou o acordo e, de quebra, adotou o nome artístico de mitocôndria.

Com esse arranjo, a célula hospedeira, livre das tarefas rotineiras e tediosas, passou a se dedicar a empreendimentos mais nobres. Como faziam os filósofos gregos que deixavam os serviços extenuantes para seus escravos e aproveitavam o tempo livre para elocubrar seus profundos pensamentos, a célula patroa usou sua folga para dar uma incrementada em sua vida. Para começar, aumentou consideravelmente de tamanho. Depois, preencheu o novo espaço com vários acessórios que iam assumindo funções variadas. Por fim, projetou e construiu um cofre que chamou de núcleo, onde guardou seus pertences mais valiosos, os cromossomos, pacotes de genes na forma de moléculas de DNA. Mudou também seu modo de se dividir. Enquanto as bactérias comuns se separam umas das outras logo após se dividirem, essa nova célula simbiótica preferia se associar com as demais. Surgiram, assim, os primeiros seres vivos multicelulares.

O resto é história, como se diz. Mas, não pense que o papel das mitocôndrias, depois de surgirem, resumiu-se a permitir o aparecimento de seres multicelulares, como se isso fosse pouco. O fato é que, na visão atual da maioria dos biólogos, as mitocôndrias estão envolvidas em vários aspectos fundamentais da vida na Terra. São elas que geram quase toda a energia que nossos corpos usam para viver, como veremos adiante. E são responsabilizadas por muita coisa boa e ruim que acontece com nossos organismos, enquanto vivemos. Mas, não vou me adiantar. Leiam as apostilas seguintes e garanto que vão encontrar muitas surpresas.


Recapitulando a biologia das células.

Origem das mitocôndrias: a teoria da endossimbiose.

Produção de energia nas células.

Por que nossas células são grandes e as bactérias são pequenas?

E por que envelhecemos?!

O poder das mulheres: a Eva mitocondrial.

Lynn Margulis: uma provocadora inquieta.