Dona Fifi aos 19 anos.

Apostilas eletrônicas de Dona Fifi
AS MITOCÔNDRIAS

O poder das mulheres: a Eva mitocondrial.

As mitocôndrias humanas só têm 37 genes. É um genoma pequeno e com muito pouco DNA "lixo". Como vimos, a mitocôndria, agindo como uma bactéria, exportou quase todos seus genes para o DNA do núcleo e conservou só os essenciais, como os que regulam a produção das enzimas da cadeia respiratória.

Vimos, também, que a divisão das mitocôndrias é independente da divisão celular e se dá quando há necessidade de mais energia. Essas diferenças entre os genomas do núcleo e da mitocôndria são marcantes mas há outra ainda mais intrigante que surge quando se dá a fertilização de um óvulo por um espermatozóide. Como todos sabem, nesse processo o material genético do espermatozóide se mistura com o do óvulo. Cada participante, pai e mãe, contribui com 23 cromossomos que se misturam e combinam, formando os cromossomos nucleares do embrião.

Algo diferente acontece com os genes mitocondriais do espermatozóide. As mitocôndrias do espermatozóide são marcados com um composto chamado ubiquitina e, quando penetram no óvulo, essa marca informa que elas devem ser destruidas. Pouco tempo após a fecundação, o embrião só tem mitocôndrias herdadas da mãe.

Em outras palavras: para as mitocôndrias só há herança materna. A genética das mitocôndrias não é mendeliana pois as mitocôndrias do embrião são iguais às da mãe, exclusivamente. E assim por diante, ao longo das gerações: do ponto de vista mitocondrial, os homens não importam, ou importam quase nada.

Isso levou à descoberta de que o DNA mitocondrial é muito bom para acompanhar linhagens genéticas. Como ele é herdado apenas da mãe, não sofre praticamente nenhuma recombinação. Também sofre pouco os efeitos da seleção natural pois seus genes são poucos e especializados. Os pesquisadores começaram então a usar o DNA das mitocôndrias para traçar a história evolutiva das populações.

Os genes do núcleo levam milhões de anos para acumular mutações pois são relativamente bem protegidos. É por essa razão que 98% de nossos genes nucleares são iguais aos genes dos chimpanzés. Os genes mitocondriais mutam cerca de 20 vezes mais rapidamente que os nucleares pois sofrem a ação dos radicais livres e são nús. A resolução nas comparações entre genes é muito mais fina se o DNA das mitocôndrias é usado, em vez do nuclear, para rastrear as árvores genealógicas.

O resultado dessas pesquisas foi interessante. Comparando o DNA mitocondrial de pessoas que vivem em vários locais no globo, os pesquisadores concluiram que todos os seres humanos descendem de uma única mulher que viveu na África há cerca de 170.000 anos. Isto é, somos todos afro-descendentes. A essa nossa ancestral eles deram o nome de "Eva Mitocondrial". Nossos primeiros avós saíram da África e se espalharam pelo resto do mundo mas deixaram uma pista de suas origens nos genomas mitocondriais que carregamos.

É bom esclarecer que tudo isso ainda é assunto para muita pesquisa e controvérsia. Por exemplo, ninguém sabe ao certo a razão da eliminação das mitocôndrias paternas na fecundação. Tem quem ache que isso se deve a um esquema da seleção natural para garantir a integridade dos genes mitocondriais que são encarregados de manter a ordem na cadeia respiratória. Uma combinação como ocorre com os genes nucleares teria maior chance de causar danos indesejáveis.

Eu prefiro acreditar que os genes mitocondriais do óvulo são mais confiáveis que os do espermatozóide. Pela justificativa acima, dos especialistas, qualquer dos dois genomas poderia ser privilegiado pela seleção natural e o efeito seria semelhante. Mas, aparentemente a coisa não é assim. Enquanto os óvulos são células grandes e tranqüilas, os espermatozóides parecem cachorrinhos pinscher, nervosos e irrequietos. Seus genes mitocondriais, provavelmente, acumulam muito mais danos pois a cadeia respiratória trabalha pesado para agüentar tanta agitação. Mas, isso é só palpite meu.


Lynn Margulis: uma provocadora inquieta.