SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo

Segrè, a Carta de Nuclídeos, o Tecnécio, o Astatíneo, o Antipróton e o Antinêutron

 Segrè, a Carta de Nuclídeos, o Tecnécio, o Astatíneo, o Antipróton e o Antinêutron.

 

Em 1934, o físico ítalo-norte-americano Emílio Gino Segré (1905-1989; PNF, PNF, 1959) fazia parte do famoso Grupo de Roma comandado pelo físico ítalo-norte-americano Enrico Fermi (1901-1954; PNF, 1938), do qual faziam parte também os italianos, os físicos Edoardo Amaldi (1908-1989) e Franco Rama Dino Rasetti (1910-2001) e o químico Oscar d´Agostino (1901-1975). Segundo Segrè conta em seu livro intitulado Dos Raios-X aos Quarks (Editora UnB, 1987), naquele ano de 1934 ele preparou uma tabela que continha os números atômicos como abscissa e o como ordenada o número de nêutrons de cada nuclídeo conhecido àquela época. Os nuclídeos estáveis eram marcados com um ponto negro, e os radioativos com um ponto vermelho. Em 1938, depois de ser despedido, por motivos políticos, da direção do Laboratório de Física em Palermo, foi trabalhar na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Lá, encontrou sua Carta de Nuclídeos ligeiramente modificada, onde os seus pontos eram substituídos por etiquetas presas com percevejos. No final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), trabalhando em Los Alamos, Segrè decidiu atualizar essa sua tabela. Contudo, nessa época, os números a serem registrados era muito grande, pois, além dos dados antigos – massa, vida média, modos de decaimento -, havia dados novos, como energia das radiações emitidas, secções de choque de captura de nêutrons, spins etc. Em vista disso, pediu a sua mulher, Elfriede Spiro Segrè, que o ajudasse. A tabela resultante teve grande êxito, muito embora as autoridades responsáveis pela segurança de Los Alamos, demorassem um pouco para permitir a sua publicação.

                   É interessante registrar que Segrè deu importantes contribuições à Física Experimental, dentre as quais destacamos as seguintes. Em 1934 (Proceedings of the Royal Society of London A146, p. 483), ele e os demais membros do Grupo de Roma apresentaram resultados das experiências que realizaram sobre a radioatividade induzida bombardeando, com nêutrons (on1), alguns elementos químicos em ordem crescente do número atômico. Em maio de 1934, eles bombardearam com nêutron o mais pesado dos elementos químicos até então conhecidos: o urânio (92U238,03). Contudo, não conseguiram entender muito bem os resultados que observaram, pois, além de obter a desintegração e a correspondente meia-vida desse elemento, conseguiram, também, uma mistura de outras meias-vidas. Desse modo, ainda em 1934, Fermi afirmou na Nature 133, p. 898, haver encontrado um novo elemento transurânico, o qual chegou a denominar de urânio-X. É interessante registrar que Fermi recebeu pressão do governo fascista italiano de Benito Amilcare Andrea Mussolini (1883-1945) para denominar esse elemento de littorio, uma vez que os “littorios” eram os oficiais romanos que portavam os “fascios” (feixes) como insígnias.   

                   Em 1937 (Atti Rendiconti Lincei, Accademia Nationale dei Lincei 25, p. 273), Segrè e o mineralogista italiano Carlo Perrier (1886-1948) anunciaram que haviam produzido artificialmente um novo elemento químico, bombardeando o molibdênio (42Mo95,94) com dêuterons (1H2) usando o ciclotron da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Como eles haviam sintetizado esse novo elemento químico usando a Tecnologia, mais tarde, em 1947, deram-lhe o nome de tecnécio (43Tc98,91), que significa artificial em grego. Em 1940 (Physical Review 58, p. 672), Segrè e os físicos norte-americanos Dale R. Corson e K. R. Mackensie sintetizaram o elemento astatíneo (85At210), que significa instável (“astatos”) em grego.       

                   Em 1955 (Physical Review 100, p. 947), Segré e os físicos norte-americanos Owen Chamberlain (1920-2006; PNF, 1959), Clyde E. Wiegand (1915-1996) e Thomas John Ypsilantis (1928-2000) anunciaram que haviam produzido os primeiros antiprótons () com o bevatron do Laboratório Lawrence de Radiação da Universidade da Califórnia, em Berkeley, construído em 1953, e que acelerava prótons a uma energia de 6,2 BeV (1 BeV = 1 GeV = 109 eV). Para isso, eles bombardearam prótons () altamente energéticos em átomos de cobre (Cu), em uma reação nuclear que apresenta o seguinte aspecto: . Em 1956 (Nature 177, p. 11), Segré, Chamberlain, Wiegand e Ypsilantis sugeriram que o antinêutron () poderia ser obtido em uma reação do tipo: .

                   É oportuno registrar que em 1956 (Physical Review 104, p. 1193), os físicos norte-americanos Bruce Cork, G. R. Lambertson, William A. Wenzel e o físico italiano Oreste Piccioni (1915-2002) anunciaram que haviam produzido  ao estudarem a colisão de  com a matéria. É ainda oportuno registrar que o  foi previsto pelo físico ítalo-russo Gleb Wataghin (1899-1986), em 1935.