SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo


A Ira de Einstein

 A Ira de Einstein.

 

Os historiadores da ciência (veja alguns deles citados em outros verbetes desta série) que escrevem sobre o suíço-norte-americano, de origem alemã, Albert Einstein (1879-1955; PNF, 1921), relatam que ele, em certas ocasiões de sua vida, manifestou momentos de ira. Quando criança, por exemplo, amarelecia sua face e esbranquiçava a ponta de seu nariz quando ficava raivoso. Ainda na infância criança, sua raiva o tornava também violento como aconteceu quando tinha cinco anos de idade, ao arremessar uma cadeira contra a sua professora particular que, amedrontada, saiu correndo da casa dos Einstein e nunca mais voltou. De outra feita e em torno daquela mesma idade, acertou a cabeça de sua irmã Maja (Maria) (1881-1951) por algumas vezes, ora usando uma bola grande de boliche, ora uma panela, ou ainda uma enxadinha de jardim. A partir dos sete anos, Einstein camuflava a ira com a ironia. [Alexandre Medeiros e Cleide Medeiros, Einstein e a Educação (Livraria da Física, 2006).] No entanto, já na idade adulta, voltou a ter acessos de ira. Por exemplo, quando em 13 de março de 1901 foi dispensado do serviço militar obrigatório, por ter pé chato, varizes e sudorese nos pés, ele ficou furioso ao receber essa dispensa. Observe-se que esse fato não é unânime entre seus biógrafos, pois como Einstein era um pacifista, a maioria deles acredita que ele ficou contente com essa notícia. É oportuno registrar que, quando morava nos Estados Unidos, seu médico particular negou aquele laudo médico alemão. [Cássio Leite Vieira, Einstein: O Reformulador do Universo (Odysseus, 2003).] Na década de 1920, quando tinha mais de quarenta anos de idade, geralmente rasgava os jornais e as revistas que falavam mal de judeus ou de fatos infundados sobre a sua pessoa ou suas idéias científicas e políticas. A ira era tão grande que obrigou a sua prima e esposa Elsa (Löwenthal) Einstein (1876-1936) a esconder dele as publicações dessa natureza. [Fernanda Cury, O Grande Gênio Albert Einstein (Minuano, s/d).]

                   Contudo, conforme relata o físico português João Magueijo (n.1967) em seu livro intitulado Mais Rápido que a Velocidade da Luz (Record, 2004), um dos exemplos mais flagrantes da ira de Einstein aconteceu em 1937 quando recebeu da revista científica Physical Review (PR), uma crítica negativa de um artigo que havia escrito com seu colaborador, o físico norte-americano Nathan Rosen (1909-1995), intitulado Do Gravitational Waves Exist? Aliás, nesse artigo, a resposta a essa pergunta era NÃO! Na frente de Rosen, Einstein rasgou o artigo, jogou os pedaços na lata do lixo, deu um pontapé nela, e ficou esbravejando furiosamente contra o editor dessa Revista, o físico norte-americano John Torrence Tate (1889-1950), de quem recebera a negativa. Mais tarde, certamente depois de passar a sua ira, escreveu a seguinte carta para Tate: Prezado Senhor. Nós (Mr. Rosen e eu) enviamos nosso manuscrito para publicação e não autorizamos ao senhor mostrá-lo a especialistas antes de ser publicado. Não vejo razão a endereçar – de qualquer maneira erroneamente – comentários de seu anônimo especialista. Em vista desse incidente eu prefiro publicar o artigo em outro lugar. Respeitosamente, A. Einstein. P. S. Mr. Rosen, que voltou para a União Soviética, autorizou-me a representá-lo neste assunto. É oportuno registrar que Tate foi Editor da PR, desde 1926 até sua morte.

                   Sobre esse incidente, há alguns comentários a fazer. 1) Magueijo soube dessa manifestação irada de Einstein por intermédio do físico dinamarquês John Moffat (n.1932), descobridor da teoria VSL (“varying speed of light”), em 1992 (cujo artigo no qual apresentou essa teoria também foi recusado pela Physical Review D), que a ouviu do próprio Rosen; 2) O árbitro (“referee”) do polêmico artigo de Einstein e Rosen foi o físico norte-americano Howard Percy Robertson (1903-1961), que teve razão ao recusá-lo, segundo opinião do próprio Rosen [ver Daniel Kennefick, Einstein Versus The Physical Review (Physics Today, September 2005, p. 430). Agradeço ao físico e jornalista científico, o brasileiro Cássio Leite Vieira (n.1960)], por haver chamado a minha atenção para esse artigo]. Aliás, Robertson era um profundo conhecedor da Teoria da Relatividade Geral, pois desde 1925 trabalhava na obtenção de uma métrica para essa Teoria, cuja versão final foi apresentada, em 1936, por ele (Astrophysical Journal 83, pgs. 187; 257), e independentemente, pelo matemático inglês Arthur Geoffrey Walker (1909-2001) (Proceedings of the London Mathematics Series 2, 42, p. 90), e hoje é conhecida como métrica de Robertson-Walker; 3) Einstein havia publicado muito na Annalen der Physik [ver Paul Arthur Schilpp (Editor), Albert Einstein: Philosopher Scientist (Open Court, 1970)], na época em que o seu editor era o físico alemão Max Karl Ernst Planck (1858-1947; PNF, 1918) e que dizia algo como: é melhor publicar um artigo errado do que nenhum (Cássio Leite Vieira, informação por e-mail, 18 de abril de 2007) e, provavelmente, não submetia a nenhum árbitro; 4) O artigo de Einstein e Rosen e rejeitado pela PR, foi publicado no Journal of the Franklin Institute 223, p. 43 , em 1937.      

                   Voltemos ao incidente Einstein versus PR. Em vista da negativa, Einstein disse para Rosen que nunca mais publicaria nenhum artigo na PR, apesar de, até aquela data, ter já publicado nela (sem ser arbitrado, conforme o artigo de Daniel Kennefick acima citado), os seguintes artigos (Schilpp, op. cit.): A. Einstein, R. C. Tolman e B. Podolsky, Knowledge of past and future in quantum mechanics, Physical Review 37, p. 780, 1931; A. Einstein, B. Podolsky e N. Rosen, Can quantum-mechanical description of physical reality be considered complete?, Physical Review 47, p. 777, 1935; A. Einstein e N. Rosen, The particle problem in the general theory of relativity, Physical Review 48, p. 73, 1935; e A. Einstein e N. Rosen, Two-body problem in the general theory of relativity, Physical Review 49, p. 404, 1936. Registre-se que o artigo escrito com Rosen e com o físico russo Boris Podolsky (1896-1966), que ficou conhecido como o famoso paradoxo de Einstein-Podolsky-Rosen (EPR), é até hoje objeto de estudo, pois ele discute o polêmico problema da inseparabilidade quântica ou da não-localidade.

                   Segundo Cássio Leite (na informação por e-mail registrada acima), apesar de Einstein haver dito que não publicaria mais nada na PR a partir do incidente de 1937, em 1953, ele voltou a publicar na Physical Review 89, p. 321, uma pequena nota com o seguinte título: A Comment on a Criticism of Unified Field Theory.