SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo


A Mecânica Celeste e a Descoberta de Neptuno.

 

A Mecânica Newtoniana foi progressivamente aplicada à Astronomia pelos astrônomos do Século 18, até constituir-se numa disciplina independente, a chamada Mécanique Celeste, cujo nome consagrou-se a partir da célebre obra homônima do astrônomo e matemático francês Pierre-Simon, Marquês de Laplace (1749-1827), constituída de cinco volumes, publicados entre 1799 e 1825 (vide verbete nesta série), e na qual estão resumidos os trabalhos do físico e matemático inglês Sir Isaac Newton (1642-1727), do astrônomo inglês Edmund Halley (1656-1742), do matemático e astrônomo francês Aléxis Claude Clairaut (1713-1765), do físico e matemático francês Jean Le Rond d´Alembert (1717-1783) e do matemático e físico suíço Leonard Euler (1707-1783), concernentes à gravitação universal.

                   Depois de constituída, a Mecânica Celeste permitiu o cálculo, com grande precisão, dos movimentos dos planetas e, com isso, verificou-se que havia variações nas órbitas de alguns deles. Por exemplo, era o que acontecia com o planeta Urano descoberto pelo astrônomo germano-inglês Sir Frederich Wilhem (William) Herschel (1738-1822) na noite do dia 13 de março de 1781, cuja órbita havia sido estudada, independentemente, por dois astrônomos, o inglês John Couch Adams (1819-1892) e o francês Urbain Jean Joseph Le Verrier (1811-1877), em 1842 e 1846.

                   Adams, que havia se graduado em 1843 na Universidade de Cambridge, começou a investigar o movimento de Urano mesmo antes de se formar, em 1842. Contudo, ao apresentar o resultado de seus cálculos, em 1845, ao Astrônomo Real, o astrônomo e matemático inglês Sir George Biddell Airy (1801-1892), este não os considerou, pois achava que a anomalia da órbita de Urano era devida à imperfeição da gravitação Newtoniana. Por seu lado, Le Verrier, ao receber a Tese de Doutoramento do  astrônomo alemão Johann Gottfried Galle (1812-1910) do Observatório de Berlin, comunicou-lhe seus resultados, dizendo-lhe: Aponte seu telescópio para um ponto da eclítica situado na Constelação de Aquário, na longitude de 3260, e você encontrará, com erro de menos de 10, um novo planeta, com aspecto semelhante ao de uma estrela de 1a grandeza, apresentando um disco perceptível. Apesar do chefe superior de Galle, o astrônomo alemão Johann Franz Encke (1791-1865), não acreditar nos cálculos de Le Verrier, a persistência de Galle o fez descobridor desse novo planeta, na noite do dia 23 de setembro de 1846. Em vista disso, os astrônomos franceses liderados pelo físico francês Dominique François Jean Arago (1786-1863) sugeriram então o nome de Le Verrier para o nome desse novo planeta. Galle, por sua vez, propôs o nome de Janus e, finalmente, o próprio Le Verrier deu o nome de Neptuno – o Rei dos Mares, na Mitologia Romana -, o que foi imediatamente aceito por consenso, já que esse planeta apresentava a cor verde, a cor dos mares. Um mês após a descoberta de Galle, o astrônomo inglês William Lassell (1799-1880) descobriu o grande satélite desse novo planeta, dando-lhe então o nome de Tritâo que, na Mitologia Romana, é filho do rei Neptuno.                                          

Segundo nos conta o químico e historiador da ciência, o russo-norte-americano Isaac Asimov (1920-1992), em sua enciclopédia Os Gênios da Humanidade (Bloch, 1974), a observação de Galle deu-se graças ao fato de que ele acabara de receber um mapa da Constelação de Aquário, revisto e corrigido. Por sua vez, Adams não teve igual sorte, pois o Observatório de Cambridge onde trabalhava, não dispunha de um bom mapa dessa região celeste, razão pela qual o astrônomo inglês James Challis (1803-1882), solicitado por Adams, em setembro de 1845, a procurar o novo planeta, não o encontrou. Mais tarde, após Galle haver anunciado a descoberta de Neptuno, ao checar suas observações de 1845, Challis percebeu que havia observado esse planeta, em agosto desse mesmo ano, em duas ocasiões distintas. É interessante observar que já havia registro de Neptuno, sem ser reconhecido como tal, desde 1795.