SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo


Lavoisier e Marat.

 

Em verbete desta série, vimos as principais contribuições do químico francês Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794) que o tornaram conhecido como o fundador da Química Moderna. Neste verbete, destacaremos aspectos de sua vida de não-cientista que o levaram a ser guilhotinado pelo Terror Jacobino da Revolução Francesa, em 8 de maio de 1794. Para maiores detalhes dessa atividade não-científica de Lavoisier, que se relacionava com cargos públicos que ocupou no Ancien Régime que dominou a França até sua queda em 1789, encontram-se no livro do escritor norte-americano Madison Smartt Bell (n.1957) e intitulado Lavoisier no Ano Um: O Nascimento de uma nova Ciência numa Era de Revolução (Companhia das Letras, 2007).

                   O pai de Lavoisier, o brilhante advogado francês Jean-Antoine, era um investidor em terras e, por isso, havia amealhado uma certa fortuna. Por sua vez, o próprio Lavoisier, ao entrar para a Fazenda Geral (La Férme Générale), em 1768, como Inspetor Regional da Comissão do Tabaco, começou também a fazer a sua própria fortuna, que foi bastante acrescida quando casou, em 1771, com a francesa Marie-Anne Pierrette Paulze (1758-1836), herdeira de uma fortuna considerável. Além de rico, Lavoisier possuía um título de nobreza – Secretário do Rei – que recebera de presente de seu pai, no dia de seu casamento. Paralelamente a sua atividade científica, Lavoisier exercia também importantes cargos públicos. Por exemplo, em 1775, foi escolhido  Diretor da Administração da Pólvora e Salitre, (Régie de Poudres et Salpêtres) e, em 1788, Diretor do Banco de Descontos (Caisse d´Escompte). Aliás, é oportuno registrar que, sob a direção de Lavoisier, a pesquisa e produção de pólvora tornou-se tão avançada que permitiu que a França, em 1776, vendesse seus excedentes desse explosivo para os revolucionários norte-americanos. Em vista disso, em 1789, Lavoisier declarou que: A América do Norte deve sua independência à pólvora francesa. Registre-se que a Revolução Americana pela Independência aconteceu em 1776. 

                   A riqueza de Lavoisier associada com o seu prestígio como cientista, financista e administrador público rendeu-lhe muita inveja, principalmente da esquerda radical que disputava o poder decorrente da Revolução Francesa de 1789. Um de seus principais detratores era o médico, escritor, político e jornalista francês Jean-Paul Marat (1743-1793), líder da facção esquerdista Montagnard. Vejamos a razão dessa animosidade. Em abril de 1779, Marat apresentou um trabalho à Academia Francesa de Ciências, no qual descreveu uma série de experiências ópticas que tornavam visíveis a matière du feu (“matéria de fogo”) (mais tarde, denominado calórico), conceito este que havia sido proposto por Lavoisier, a partir de 1772, em substituição ao flogístico Stahliano, para poder entender o fogo. Para Marat, o fogo resultava da atividade de partículas do fluido ígneo contido nos corpos. Contudo, essa teoria proposta por Marat foi rejeitada por aquela Academia, sendo Lavoisier um dos principais acadêmicos que liderou essa rejeição, pois suas experiências sobre o conceito do fogo (vide verbete nesta série) não confirmavam essa teoria de Marat. Além do mais Marat era defensor do mesmerismo (sobre este termo, ver o final deste verbete). Em vista disso, Marat começou a desenvolver uma forte hostilidade à comunidade científica francesa, em particular a Lavoisier.

                   Vitoriosa a Revolução Francesa, com a Queda da Bastilha [prisão dos inimigos pessoais do Rei Luís XVI (1754-1793) e símbolo do Absolutismo Francês], em 14 de julho de 1789, Marat começou a atacar violentamente Lavoisier. Em janeiro de 1791, Marat escreveu no jornal L´Ami du Peuple, que ele próprio fundou, em setembro de 1789, a seguinte diatribe contra Lavoisier (Bell, op. cit.): Denuncio a vocês o corifeu dos charlatões, mestre Lavoisier, filho de um açambarcador de terras, químico aprendiz, discípulo do especulador em ações genebrês Necker, um fazendeiro-geral, comissário da Pólvora e Salitre, diretor do Banco de Descontos, secretário do rei, membro da Academia de Ciências, íntimo de Vauvilliers, administrador inconfiável da Comissão de Alimentos de Paris e o maior maquinador dos tempos.

                   Até seu assassinato, em 13 de julho de 1793, pela jovem francesa Charlotte Corday (1768-1793) (de origem aristocrata e que morreu guilhotinada no dia 17 de julho de 1793), Marat continuou atacando Lavoisier. Com a morte de Marat, iniciou-se o Reinado de Terror da Revolução Francesa que, certamente influenciado pelas diatribes de Marat contra Lavoisier, sentenciou sua morte na guilhotina em 8 de maio de 1794. Sobre essa sentença, existe a célebre frase pronunciada pelo juiz que a decretou que, certamente consciente que estava condenando a morte um “sábio”, teria declarado: La revolution n´a pas besoin de savant (“A revolução não precisa de sábio”). Uma outra frase célebre sobre a execução de Lavoisier foi pronunciada pelo físico e matemático ítalo-francês, o Conde Joseph Louis Lagrange (1736-1813) (Bell, op. cit.): Eles não levaram mais do que um momento para fazer rolar aquela cabeça, e cem anos podem não ser suficientes para produzir outra cabeça daquelas.

                   Na conclusão deste verbete, cremos ser oportuno anotar duas curiosidades. 1) O inventor da guilhotina, o médico francês Joseph Ignace Guillotin (1738-1814), Lavoisier e o cientista norte-americano Benjamin Franklin (1706-1790), em 1784, foram designados pela Academia Francesa de Ciências para investigar o “magnetismo animal”, um método de cura praticado pelo médico austríaco Franz (Friedrich) Anton Mesmer (1734-1815), método esse conhecido como mesmerismo; ao final da investigação, concluíram que esse método não apresentava nenhuma base científica; 2) A viúva de Lavoisier [que, quando ainda casada teve um caso amoroso, iniciado em 1781, com um colega de Lavoisier, o escritor e economista francês Pierre Samuel Du Pont de Nemours (1739-1817), envolvimento esse que só foi descoberto depois da morte de Du Pont, ao ser conhecida a sua correspondência], ao ser cortejada durante os quatro primeiros anos de viuvez, decidiu casar-se com o físico anglo-norte-americano Benjamin Thompson, Conde Rumford (1753-1814), autor da teoria de que o “calor é uma forma de movimento” (vide verbete nesta série). Ainda é interessante registrar que Madame Lavoisier acompanhou sempre seu marido no laboratório, ajudando-o a preparar registros em suas notas de laboratório, assim como foi a ilustradora dos trabalhos científicos de Lavoisier. Ela tinha tanta admiração por seu marido que, embora casada com Rumford, manteve Lavoisier em seu nome até a sua morte.