SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo



A “Nuvem Negra” e o “Código Da Vinci”.

O objetivo deste verbete é o de comparar os desfechos de dois livros de ficção. Vejamos quais. Em 1957, o astrofísico inglês Sir Fred Hoyle (1915-2001) escreveu a novela de ficção intitulada The Black Cloud (“A Nuvem Negra”, Edições GRD/RJ, 1962), na qual ele descreve a trágica aventura vivida pelos terráqueos em conseqüência da aproximação de uma “nuvem negra” em direção ao planeta Terra. Essa “nuvem” fora primeiramente observada pelo astrônomo norueguês Knut Jensen em 9 de dezembro de 1963, no telescópio Schmidt de 18 polegadas do Observatório Monte Palomar, dirigido pelo Dr. Herrick e localizado em Pasadena, no sul da Califórnia, quando examinava o sul da Constelação de Orion. Inicialmente, pensou tratar-se de um defeito da chapa fotográfica, porém, ao comparar com a fotografia que tirara semanas antes, percebeu que havia alguma coisa de intrigante nas chapas que fizera. Assim, no dia 14 de janeiro de 1964, procurou o Dr. Geoff Marlowe, um dos astrônomos mais graduados daquele Observatório, em sua residência, em Altadena, para discutir sobre o que estava observando. Essa informação foi passada a alguns dos cientistas daquele Observatório, como os astrônomos norte-americanos Paul Rogers, Bert Emerson, Bill Barnett e Harvey Smith, e o físico Dave Weichart.
Por essa mesma época, em Londres, houve uma reunião na Real Sociedade Astronômica. Dela, participaram vários astrônomos, dentre os quais, Chris Kingsley, Professor de Astronomia da Universidade de Cambridge, que se sentara ao lado do Astrônomo Real, mais o Dr. Oldroyd, Presidente dessa Sociedade, que anunciou a presença do senhor George Green, o primeiro palestrante da reunião. Ao ser solicitado pelo Presidente, Green apresentou então resultados surpreendentes sobre o que observara a respeito dos planetas Júpiter e Saturno. Logo depois, o Astrônomo Real confirmou as observações de Green. Em vista disso, o Dr. Oldroyd solicitou a opinião de Kingsley. Este, levantou-se e, dirigindo-se para a assembléia, falou: Se os resultados apresentados estiverem corretos, então deve existir, na vizinhança do Sistema Solar, um corpo até agora desconhecido, cujo tamanho deve ser comparável ao de Júpiter, ou talvez maior. Dito isso, sentou-se. Dias depois, usando o “cérebro eletrônico” da Universidade de Cambridge, Kingsley começou a examinar os dados apresentados a ele pelo Astrônomo Real e confirmou, em um jantar que ofereceu ao Astrônomo Real em seu apartamento no Erasmus College, que o sistema solar estava sendo invadido por um corpo estranho.
De posse dessa confirmação, e com o consentimento do Astrônomo Real, Kingsley enviou um telegrama para Marlowe em Pasadena, com o seguinte teor: Favor informar se objeto anormal existe em Ascensão Reta cinco horas quarenta seis minutos. Declinação menos trinta graus doze minutos. Massa dois terços Júpiter, velocidade setenta quilômetros por segundo diretamente à Terra. Distância heliocêntrica 21.3 unidades astronômicas. Mais rapidamente do que pensavam, Marlowe remeteu a seguinte resposta: Indispensável que você e o Astrônomo Real viajem imediatamente para Pasadena. Passagens Pan American, Estação Vitória. Vistos providenciados Embaixada Americana. Automóvel esperando aeroporto Los Angeles. Herrick.
A partir do encontro desses astrônomos, uma série de providências foi tomada no sentido de descobrir que corpo estranho se aproximava de nosso Sistema Solar. Depois de vários cálculos e observações astronômicas, astrônomos e rádio-astrônomos terráqueos descobriram que o corpo estranho era uma nuvem negra que se alimentava da energia solar, e que deveria estar sendo conduzida por alguma inteligência extraterrestre, conforme opinião de Kingsley. Desse modo, para examinar a nuvem, o Governo Britânico decidiu que o seu estudo deveria ser realizado em uma região bastante afastada de Londres. Foi então escolhido o local denominado Nortonstowe, no planalto de Cotswolds, a noroeste de Cirencester. Assim, sob a direção de Kingsley foram lá instalados todos os materiais e equipamentos necessários ao estudo da nuvem, bem como condições de moradia para os que lá iriam trabalhar. Além do mais, Kingsley teve a liberdade absoluta de reunir os melhores cientistas que existiam no planeta. Em vista disso, ele também reuniu o russo Alexi Ivan Alexandrov, especialista em dinâmica de gases, o inglês John Marlborough, especialista em Termodinâmica e seu colega de Cambridge, o australiano Harry C. Leicester, especialista em telecomunicações, além de seus velhos conhecidos, como Marlowe, Emerson, Barnett, Weichart e o próprio Knut.
Os primeiros efeitos da proximidade da nuvem aconteceram no verão (junho e julho) de 1964, com a elevação da temperatura da Terra, provocando a asfixia de centenas de milhares de pessoas, entre as latitudes do Cairo e do Cabo de Boa Esperança. Em conseqüência dessa elevação de temperatura, tempestades e tufões varreram a Terra. Um desses tufões passou por Nortonstowe e derrubou árvores matando muitas pessoas, inclusive e, infelizmente, Knut, o primeiro observador da nuvem. Depois dessa elevação de temperatura, como a nuvem precisava de energia do Sol, ela começou a se aproximar desse astro, encobrindo-o. Essa aproximação gerou uma onda de frio tão grande que provocou a morte, entre agosto e outubro de 1964, de cerca de um quarto da população planetária. Por outro lado, as primeiras aparições visuais apavorantes da nuvem aconteceram no norte da África, em novembro de 1964, observadas pelos engenheiros que trabalhavam em um poço de petróleo na Arábia. Tal aparição provocou várias manchetes de jornal no mundo inteiro, tais como: Aparição no céu! Escurecimento no céu foi descoberto na África! Os astrônomos dizem que não haverá estrelas no Natal. Enquanto novas aparições apavorantes da nuvem eram observadas em vários lugares da Terra, os cientistas reunidos em Nortonstowe procuravam uma maneira de estabelecer contato com a nuvem.
Para tentar o primeiro contato com a nuvem, eles começaram a discutir sobre o tipo de comunicação que iriam utilizar. Depois de várias idéias apresentadas, decidiram por usar ondas eletromagnéticas. Enviaram então ondas com comprimento de um metro, de dez centímetros, e de um centímetro. Destes três tipos de onda, apenas a de um centímetro conseguia maior penetração na nuvem. Como não obtiveram resposta da nuvem, Alexandrov, Weichart, Leicester, Marlowe e Kingsley discutiram a razão da não obtenção do contato. Depois de algumas horas de acaloradas discussões, Kingsley apresentou a idéia de que o não recebimento de resposta foi em virtude de as ondas emitidas não haverem carregado nenhuma informação inteligente como, por exemplo, pulsos modulados de um centímetro, contendo temas simples de matemática e física. Com essa idéia aceita, começaram a emitir tais pulsos. Após alguns dias de transmissão dessas ondas, a nuvem finalmente mandou sua primeira resposta: Mensagem recebida. Pouca informação. Mande mais.
Ao receber essa mensagem, aqueles cientistas se reuniram novamente e, Leicester, que era especialista em telecomunicações, sugeriu usar a tecnologia envolvida na transmissão de TV para emitir mensagens, uma vez que as ondas usadas nessa transmissão televisiva são de comprimento de onda muito menores que um centímetro e, portanto, mais penetrantes. E assim foi feito. Logo receberam a seguinte mensagem: Felicitações pelo progresso da técnica. Depois de vários dias de mensagens trocadas entre Nortonstowe e a nuvem, inclusive com o envio de informações sobre a cultura artística terráquea, como, por exemplo, a opus 106 de Beethoven, além de informações sobre as duas outras culturas, a humanística e a técnico-científica, a nuvem percebeu que os terráqueos estavam muito atrasados em sua cultura, sobretudo, científica e tecnologicamente. Assim, a nuvem resolveu mandar tais informações para a Terra, e orientou a construção de um tipo de equipamento, cujos detalhes foram cuidadosamente anotados por Leicester, para recebê-las. Além do mais, “ela” sugeriu que escolhessem alguém para recebê-las e, depois, outros se seguiriam. Houve então uma discussão entre os cientistas de Nortonstowe sobre a possibilidade do cérebro de o receptor ser danificado por receber informações que não conheciam e, portanto, esperavam por um voluntário. O primeiro a se apresentar como cobaia foi Weichart. Depois de receber, por um período de dez horas, as primeiras informações, que chegavam codificadas e com muita velocidade, Weichart ficou em estado hipnótico e, sem responder às perguntas que seus colegas o faziam, com a temperatura de seu corpo se elevando cada vez mais, assim permanecendo até morrer.
Atônito com a morte de Weichart, mas não querendo perder as informações que a nuvem estava mandando, Kingsley resolveu ele próprio ser a próxima cobaia. Entrou em contato com a nuvem e, pedindo que diminuíssem a velocidade de envio das informações, passou a recebê-las. Contudo, a diminuição dessa velocidade não foi suficiente para mantê-lo vivo. Ele morreu dois dias depois. Certamente a morte de mais um cientista fez com que a nuvem compreendesse que os terráqueos não estavam ainda preparados para obter novos conhecimentos, decidiu então partir do sistema solar. Desse modo, na primavera de 1966, o Sol voltou a lentamente a aparecer no céu dos terráqueos.
Sobre esse livro de ficção escrito por Hoyle, farei dois comentários. O primeiro, refere-se ao modo como meu querido amigo, o saudoso físico argentino Juan José Giambiagi (1924-1996), em agosto de 1968, em São Paulo, no apartamento de dois outros queridos amigos, o casal de físicos brasileiros, Jayme Tiomno (n.1920) e Elisa Frota Pessoa (n.1921), indicou-me a leitura desse livro. Ele me disse: Bassalo, você verá nesse livro do Hoyle como o cientista, em seu íntimo, deseja ser o centro das atenções do mundo. O segundo comentário relaciona-se ao desfecho da história ficcional de Sir Fred Hoyle. Como ele não poderia descrever (porque nem ele, e ninguém na Terra, na época em que escreveu o livro, sabiam) quais eram os novos conhecimentos científicos transferidos pela nuvem aos dois cientistas, Weichart e Kingsley, ele os “matou”. Embora essas mortes sejam compreensíveis, Hoyle, por já haver morrido, não mais poderia responder às seguintes dúvidas que certamente alguns leitores, como eu, ficaram ao ler o livro: 1) Qual a razão que o levou a “matar” Knut, o primeiro que observara a nuvem?; 2) Será que ele foi inspirado pelo episódio do Gigante Adamastor, descrito pelo poeta português Luís Vaz de Camões (c.1524/1525-1580), no poema épico Os Lusíadas (1572), Canto V, no qual há a versificação do diálogo do navegador português Vasco da Gama (c.1460-1524) com uma nuvem escura que, “ao tomar a forma de uma figura enorme, de rosto fechado, de olhos encovados, de postura má, de cabelos crespos e cheios de terra, de boca negra e de dentes amarelados”, o Gigante Adamastor, o adverte do perigo de contornar o Cabo das Tormentas ou Tormentosas, no sul da África, em seu caminho para as Índias? Essa descrição de Adamastor, assim como uma análise literária desse famoso episódio, encontra-se no texto Os Lusíadas, episódio O Gigante Adamastor Vaz de Camões (Curso Minerva, 2007) preparado por minha mulher, a professora de Teoria Literária Célia Coelho Bassalo (n.1939), a quem agradeço nesta oportunidade por haver chamado a minha atenção sobre aquele diálogo.
Vejamos o segundo livro. Em 2003 o escritor norte-americano Dan Brown (n.1964) escreveu o livro The Da Vinci Code [“O Código Da Vinci” (Sextante, 2004)], no qual narra a saga de Robert Langdon, professor de História da Arte e Simbologia Religiosa da Universidade de Harvard, com auxílio da criptologista francesa Sophie Neveu, da Diretoria Central da Polícia Judiciária Francesa (DCPJF), o equivalente do Federal Bureau of Investigation (FBI) norte-americano, para descobrir as pistas ocultas nas obras do artista, inventor e cientista italiano Leonardo Da Vinci (1452-1591) sobre um segredo que foi protegido por uma sociedade secreta européia fundada em 1099, o Priorado de Sião, segredo esse relacionado ao significado do Santo Graal (o cálice de Cristo). No resumo que farei deste livro, usarei o texto do físico brasileiro J. Maurício O. Matos (n.1950), intitulado O Código Da Vinci – Símbolos e Arte, publicado no jornal O Povo, de Fortaleza, Ceará, em 01 de junho de 2004; o livro do Brown; o filme sobre esse livro, lançado em 2006, com Tom Hanks no papel de Langdon, e Audrey Tautou como Sophie; e os sites: pt.wikipedia.org/wiki/O_CÃ3digo_Da-Vinci
e www.chamada.com.br/mensagens/codigo_da_vinci.html (consultas: 08/09/2007).
O tema central apresentado por Brown é o de que na famosa tela A Última Ceia pintada por Da Vinci [que era membro do Priorado de Sião, assim como posteriormente também foi membro o físico e matemático inglês Sir Isaac Newton (1642-1727), segundo Brown], o apóstolo à direita de Jesus é Maria Madalena, uma vez que o rosto, os cabelos e as formas do colo parecem ser de uma mulher, diferentemente das demais figuras pintadas na Ceia. Além do mais, no livro há a afirmação de que Maria Madalena é o Santo Graal e que, juntamente com seu marido Jesus, seriam os progenitores de uma linhagem merovíngia de governantes europeus, alguns dos quais estariam ainda vivos, como a própria Sophie. Brown também escreve que Maria Madalena estaria sepultada sob a pirâmide invertida localizada no Museu do Louvre, em Paris, com o poder ainda de emitir emanações de seu espírito divino.
Ainda nesse livro, Brown interpreta a outra famosa pintura de Da Vinci, a Mona Lisa, conferindo também destaque ao sagrado feminino, como fizera na A Última Ceia. Com efeito, para Brown, Da Vinci pintou a Gioconda com a linha do horizonte à esquerda em um nível visivelmente mais baixo que a da direita, para destacar o rosto dela, Gioconda, uma vez que esse parece maior quando visto da esquerda para a direita. Segundo Maurício (op. cit.), esse detalhe pode ter relação com o fato de, historicamente, os conceitos de masculino e feminino estarem associados aos lados direito e esquerdo, respectivamente.
É interessante destacar que a luta da Igreja, principalmente a da prelazia do Vaticano, conhecida como Opus Dei, contra a “divindade feminina”, é novamente realçada por Brown ao afirmar que Da Vinci, na tela A Última Ceia, pintou o apóstolo Pedro com um gesto ameaçador em direção a Maria Madalena para intimidá-la a não usar de sua influência com seu marido Jesus. Além disso, Brown confirma sua tese de ser Madalena o próprio cálice de Cristo, isto é, o Santo Graal, pela ausência desse específico objeto físico na tela pintada por Da Vinci.
Segundo Brown, o drama de Langdon se inicia quando, depois de fazer uma palestra sobre o simbologismo padrão oculto nas pedras da Catedral de Chartres, no Pavillon Dauphine da The American University of Paris, é acordado pelo porteiro do Hotel Ritz Paris, dizendo-lhe que uma pessoa importante e, bastante aflita, estava lhe esperando na recepção. Como passava da meia-noite e estava muito cansado, pediu ao porteiro que anotasse o número do telefone da pessoa, e desligou. Passado mais uns minutos, o porteiro voltou a lhe telefonar dizendo-lhe que a pessoa estava se dirigindo para o quarto onde Langdon se encontrava hospedado, pois precisava falar com ele urgentemente. Ao atender a campainha da porta do quarto, o estranho se apresentou como Jérôme Collet (interpretado no filme pelo ator Etienne Chicot), tenente da DCPJF e, depois de uma rápida conversa, pediu-lhe que o acompanhasse até o Museu do Louvre, pois seu superior, o capitão Bezu Fache (interpretado no filme pelo ator Jean Reno) desejava elucidar o assassinato do curador daquele Museu, Jacques Saunière (interpretado no filme pelo ator Jean-Pierre Marielle). Collet mostrou-lhe então uma foto do corpo inerte no chão e disse-lhe que a razão do convite para ir até o local do crime, devia-se ao fato de seu nome constar na agenda do curador. Neste momento, Langdon compreendeu a ausência de Saunière no encontro que havia marcado para depois de sua palestra.
Quando Langdon chegou ao Museu do Louvre foi recebido pelo capitão Fache que o conduziu até o local onde estava o cadáver de Saunière, que se encontrava exatamente como mostrava a fotografia que vira, isto é, despido, numa posição que sugeria o famoso esboço gráfico de Da Vinci, O Homem Vitruviano, apresentando um pentagrama desenhado no peito com o seu próprio sangue. Ao lado do cadáver, havia uma série de símbolos e criptogramas, assim como a seguinte mensagem: 13-3-2-21-1-1-8-5. O, Draconian devil! Oh. Lame saint. Enquanto olhavam para o corpo inerte e pálido de Saunière, Fache recebeu um aviso, pelo seu rádio, de que a criptóloga Sophie estava chegando para falar com Langdon. Depois de se apresentar a Langdon, ela virou-se para o capitão Fache e disse-lhe que já havia decifrado a parte numérica da mensagem deixada por seu avô. Esses números representam os oito primeiros termos, escritos em ordem aleatória, da famosa seqüência de Fibonacci, proposta no Século 13, completou Sophie. [Registre-se que essa seqüência foi sugerida pelo matemático italiano Leonardo de Pisa, conhecido como Fibonacci (c.1170-1250), e é formada com os dois primeiros termos iguais a 1 e, a partir do terceiro, ela se constrói com a soma dos dois termos imediatamente precedentes, isto é: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21 ... .]
Após a explicação sobre aqueles estranhos números, Sophie solicitou a Langdon que entrasse em contato imediatamente com o Consulado dos Estados Unidos, e passou-lhe o celular e o número a ser chamado. Ao discar e ouvir a própria voz de Sophie com mensagens estranhas a ele, ficou um pouco atordoado, mas em seguida percebeu que a jovem usara de um artifício para tirá-lo de lá. Mas por quê?, deve ter pensado Langdon. Logo depois, e a sós, Sophie disse-lhe que Fache o considerava suspeito desse crime, pois encontrara na mensagem alfa-numérica referida, uma quinta linha – P. S. Find Robert Langdon –, que o capitão havia apagado antes da chegada de Langdon, depois de fotografá-la. Disse-lhe ainda que Fache havia ordenado a Collet que, ao se encontrar com Langdon no Hotel, colocasse, discretamente, um minúsculo botão metálico, um localizador GPS (“Global Positioning System”), para permitir seguir os passos de Langdon por onde ele se deslocasse. Ao encontrá-lo em um dos bolsos de seu paletó, Langdon tentou jogá-lo fora, mas foi impedido por Sophie para não alertar Fache.
Para se livrar de Fache e da DCPJF, Sophie e Langdon saem do Museu (depois de Langdon jogar o localizador GPS fora), e vão em busca da solução do enigma deixado por Saunière que era, segundo Brown, Grão-Mestre do Priorado de Sião, e que sua morte estava ligada ao fato de ele haver descoberto o segredo do Santo Graal. Uma das primeiras pistas que levaram Langdon a encontrar aquela solução foi quando este descobriu que a mensagem alfabética do enigma nada mais era do que o anagrama: Leonardo da Vinci! The Mona Lisa! Aliás, antes dessa descoberta, Sophie havia lhe dito que o P.S. da mensagem significava Princesa Sophie, que era como o avô lhe chamava quando morou com ele. A partir daí, o casal, Sophie e Langdon, se lança em uma emocionante aventura pelas ruas de Paris, Londres e Escócia, coletando pistas para tentar decifrar o enigma que certamente abalaria os alicerces da civilização, aventura essa muito bem narrada por Brown que, no entanto, está fora do escopo deste verbete.
Sendo o objetivo deste verbete o de apenas comparar os desfechos dos dois livros analisados até aqui, vamos então ao desfecho do livro de Brown. Antes, no entanto, é oportuno dizer que, além das análises dos dois quadros de Da Vinci apresentadas por Brown e descritas anteriormente, este autor ainda discute o significado do pentagrama pintado no ventre de Saunière, relacionando às cinco diagonais obtidas ligando-se os cinco vértices, cujas interseções divide cada diagonal em dois segmentos desiguais, de modo que a razão da diagonal e sua parte maior, é igual a razão desta com a parte menor. Essa razão é a bem conhecida Proporção Áurea ou Divina Proporção, que é representada pela letra grega e vale 1.61803... . Aliás, tal relação está representada no O Homem Vitruviano de Da Vinci, pois ela é exatamente a razão entre a altura desse “homem” e a distância do umbigo à extremidade de sua cabeça. Ainda em seu livro, Brown mostra vários exemplos da Natureza onde aparece , assim como descreve um ritual sexual estranho parecido com o presenciado pelo ator Tom Cruise no filme Eyes wide shut (“De olhos bem fechados”, 1999), do cineasta americano Stanley Kubrick (n.1928), conforme afirma Maurício (op. cit.).
Além do descrito acima, Brown mostra como Sophie havia descoberto que a seqüência de Fibonacci era o número da conta que seu avô tinha na filial do Banco de Custódia de Zurique, cujo gerente noturno era André Vernet (interpretado pelo ator Jürgen Prochnow). De posse da chave do cofre que seu avô tinha nesse banco e com a senha indicada por aquela seqüência, Sophie retira do cofre uma caixa de madeira pau-rosa, sob os olhares de Vernet e Langdon. Essa caixa tinha na tampa uma linda rosa em marchetaria e em seu interior havia um críptex cilíndrico de mármore, com letras gravadas em volta de sua parte externa, com cinco discos em seu interior também com letras gravadas, além de um frasco de vidro que continha um mapa de papiro, no qual estava gravado um poema. Depois de várias tentativas e muita discussão para tentar decifrar esse novo enigma, Langdon lembrou-se que tinha um amigo que poderia ajudá-los a decifrá-lo. Tratava-se de Sir Leigh Teabing (interpretado pelo ator Ian McKellen), um Historiador Real Britânico, um Cavaleiro da Coroa e um Mestre no Graal, que morava no Châteuau Villette, perto de Versailles. Ao encontrarem Teabing, Langdon explicou ao Sir Leigh tudo o que estava acontecendo, inclusive a perseguição de Fache para prendê-lo, suspeito do assassinato de Saunière. Como Fache estava chegando em Châteuau Villette , Teabing achou melhor tirá-los de Paris, levando-os, em seu avião particular, para Zurique. Contudo, no meio da viagem, Langdon descobre uma mensagem escondida na caixa de madeira, em forma de poema: Cavaleiro em Londres um Papa enterrou / Qu´ira santa o fruto de sua obra gerou. / Busca o orbe da sua tumba ausente. / Fala de Rósea carne e semeado ventre. Ao ver esse poema, Langdon e Teabing descobrem que esse cavaleiro era Sir Isaac Newton, e decidem mudar a rota do avião para Londres, pois sabiam que Newton fora sepultado na Abadia de Westminster. [Destaque-se que o funeral de Newton teve uma pompa nunca vista, pois foi acompanhado pelas principais personalidades do mundo científico, incluindo todos os membros da Sociedade Real, a nobreza, os políticos e a alta hierarquia da Igreja Anglicana. Seu corpo foi sepultado em uma posição proeminente na nave da Abadia, que havia sido negada a nobres da mais alta estirpe, conforme Eduardo de Campos Valadares, Newton: A órbita da Terra em um copo d´água (Odysseus, 2003).]
Na capital da Inglaterra, os três empreenderam uma nova aventura, visitando vários locais, a fim de tentar decifrar o críptex. Como Teabing já era conhecedor do segredo que Saunière sabia e tentando preservá-lo, na Chapter House, onde se encontravam, apontou uma arma para Langdon e Sophie, dizendo-lhes que tinha que fazer isso para preservar o segredo que havia sido descoberto por Sauvière, qual seja, o de que o Santo Graal era Maria Madalena. Porém, ele não sabia onde esta se encontrava sepultada e acreditava que poderia obter essa informação no críptex trazido por Langdon. Para tentar obtê-lo, Teabing lutou para tirá-lo de Langdon. Na luta, o críptex saiu de suas mãos e caiu no solo partindo-se. Ao perceber que pingava vinagre entre os discos internos, ficou desesperado pensando que o líquido havia dissolvido o papiro e, portanto, destruído a informação sobre o local onde estaria sepultada Maria Madalena, o Santo Graal. Percebendo o desespero de Teabing, com um rápido golpe Langdon o desarmou, que ficou caído no chão. Mais tarde ele foi preso por Fache, pois este descobrira em Paris ser ele, Sir Leigh, o mandante do crime, daí ter vindo a Londres para prendê-lo. Durante o interrogatório de Teabing, Fache descobre que o Bispo Manuel Aringarosa (interpretado pelo ator Alfred Molina), líder do Opus Dei, fora avisado por Teabing sobre o perigo que estava correndo o segredo guardado pelo Vaticano há 2.000 anos. Fache, então, providenciou a sua prisão.
Vejamos mais um aspecto do desfecho do livro. Examinando o críptex e suas mensagens secretas, Langdon examinou mais detalhadamente o poema com quatro versos explícitos: Abaixo da antiga Roslin´stá o Graal. / Lâm´na e cálice guardam-lhe o portal./ Pela arte dos grandes mestres velada jaz. / Sob estrelado céu descansa em paz Sophie percebeu que se tratava da Capela Rosslyn, localizada ao sul de Edimburgo, na Escócia, pois já a havia visitado com seu avô, em uma temporada de férias, que lhe dissera ser Roslin a sua antiga grafia. E partiram para lá. Em lá chegando, perceberam que a Capela, que havia sido construída, em 1446, pelos Cavaleiros Templários, uma ramificação militar do Priorado de Sião, apresentava gravada em suas paredes uma quantidade impressionante de símbolos judeus, cristãos, egípcios, maçônicos e originários de tradições pagãs, conforme estava descrito no mapa. A Capela se tornara um local de peregrinações pois diziam que sob a cripta (câmara subterrânea) dessa Capela havia sido enterrado o Santo Graal. No entanto, quando os arqueólogos pediam permissão para perfurar o local, a Rosslyn Trust, a instituição curadora dessa ermida, nunca permitia que se fizesse a escavação, o que aumentava mais a crença de que o Santo Graal realmente ali se encontrava. Por outro lado, como Rosslyn andava atraindo muita atenção, e como mais cedo ou mais tarde alguém encontraria uma forma de penetrar na cripta onde estaria sepultada Maria Madalena, esta foi retirada de lá. Antes de falar da solução final do enigma proposto por Saunière, Brown descreve que Sophie encontra em Rosslyn seu irmão e sua avó, que nos últimos 28 anos chamava-se Marie Chauvel, então presidente do Rosslyn Trust, que lhe diz ser ela descendente de Maria Madalena. Ao encontrar o que restou de sua família, Sophie decide ficar um pouco em Rosslyn e se despede de Langdon, com um beijo nos lábios e um abraço bem apertado desejando-lhe uma boa viagem para Paris. Antes de partir, Langdon mantinha em mente a frase de Marie Chauvel que, ao ser questionada por Langdon onde estaria Maria Madalena, lhe respondeu: Um dia você vai descobrir.
Por fim, Brown apresenta a solução final do enigma proposto por Saunière quando descreve os últimos passos de Langdson, já de volta a Paris e hospedado no mesmo Hotel Ritz Paris. Depois de andar pela cidade e relembrando os três versos restantes do poema escrito no papiro, que falava na arte dos grandes mestres, em cálice (forma de uma pirâmide invertida) e em lâmina, além de falar em descanso em paz sob um céu estrelado, Langdon teve a intuição de que Maria Madalena se encontrava no Museu do Louvre, em uma minúscula estrutura, embaixo da pirâmide invertida (uma imensa clarabóia que pendia do alto), localizada no subsolo do Museu. Com essa convicção, rumou para o Museu, entrou pela grande pirâmide [projetada pelo arquiteto sino-norte-americano Ieoh Ming Pei (n.1917), com 666 vidraças] e seguiu em busca da pirâmide invertida. Ao olhar para a pirâmide, viu embaixo desta uma pequena pirâmide de 90 centímetros de altura. Então ergueu os olhos para o alto, contemplou, através do vidro, um céu noturno todo estrelado e ouviu, como se fossem os murmúrios de espíritos na escuridão, as seguintes palavras: A busca pelo Santo Graal é a busca para se ajoelhar diante dos olhos dos ossos de Maria Madalena. Uma jornada para orar aos pés da exilada. Nos dois últimos parágrafos de seu livro, Brown escreve: Com um súbito transbordamento de reverência, Robert Langdon caiu de joelhos./ Por um momento, pensou ter ouvido uma voz feminina ... a sabedoria milenar ... sussurrando, vindo lá do seio da terra. Registre-se que no filme dirigido por Ron Howard, os últimos momentos de Robert Langdon no Museu do Louvre são representados por Tom Hanks olhando o interior de pirâmide invertida, com um close na pequena pirâmide, e uma imagem final de um túmulo, dando a entender que no interior dele estavam os ossos de Maria Madalena - o Santo Graal. Estava assim resolvido o enigma de Saunière.
Na conclusão deste verbete, gostaria de fazer um comentário sobre os desfechos dos dois livros analisados. Enquanto Hoyle, “mata” os astrônomos que receberam novos conhecimentos da nuvem negra, por não poder descrever quais eram esses conhecimentos (ele poderia inventá-los, fazendo uma previsão futura a partir dos seus próprios conhecimentos), Brown resolveu dar um ponto final no mistério do Santo Graal. Se ele tivesse encerrado a sua história, com Langdon voltando de Rosslyn para os Estados Unidos, sem resolver o enigma de Saunière, ele evitaria os ataques que sofreu da Igreja Católica e de seus seguidores (ver os sites citados) e preservaria o mistério do Santo Graal!