SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo



A Classificação e a Nomenclatura das Partículas Elementares.

Hoje, as Partículas Elementares se classificam em portadoras (“carriers”) de força (interação) e em portadoras da matéria. Dentro dessa classificação, elas pertencem a dois grupos distintos com relação ao seu spin: fermiônicas [com spin semi-inteiro e que satisfazem a Estatística de Fermi-Dirac; destaque-se que o nome férmion foi cunhado pelo físico inglês Paul Adrien Maurice Dirac (1902-1984; PNF, 1933), em 1947] e bosônicas [com spin inteiro e que satisfazem a Estatística de Bose-Einstein; esse nome foi dado para homenagear o físico indiano Satyendra Nath Bose (1894-1974)]. Sobre essas Estatísticas, ver verbete nesta série. É oportuno registrar que existe um terceiro grupo, ainda em estudo, que são as gentiliônicas, previstas pelos físicos brasileiros Mauro Sérgio Dorsa Cattani (n.1942) e Normando Celso Fernandes (n.1936), em 1982 (Revista Brasileira de Física.12, p. 585), e que satisfazem a Estatística de Gentile, proposta pelo físico italiano Giovani Gentile Junior, em 1940 (Nuovo Cimento 1, p. 493 (1940). Neste verbete, vamos definir essas classificações e ver como elas foram nomeadas. Para isso, usaremos os seguintes textos: Sheldon Lee Glashow and Ben(jamin) William Bova, Interactions: A Journey Through the Mind of a Particle Physicist and the Matter of This World (Warner Books, 1989); Glashow, The Charm of Physics (Touchstone Book, 1991); Leon Max Lederman and Dick Teresi, The God Particle (Delta Book, 1994); Murray Gell-Mann, The Quark and the Jaguar: Adventures in the Simple and the Complex (W. H. Freeman and Company, 1994); Abraham Pais, Inward Bound of Matter and Forces in the Physical World (Clarendon Press and Oxford University Press, 1995); John Gribbin, Q is for Quantum: An Encyclopaedia of Particle Physics (Touchstone Book, 1999); Martinus Justinus Godefridus Veltman, Facts and Mysteries in Elementary Particle Physics (World Scientific, 2003); Maria Cristina Batoni Abdalla, O Discreto Charme das Partículas Elementares (EDUNESP, 2006); Roberto Aureliano Salmeron, Challenges of 21st Century Physics (Mimeo, 2008); e José Maria Filardo Bassalo e Mauro Sérgio Dorsa Cattani, Teoria de Grupos para Físicos (Livraria da Física, 2008).
Em verbete desta série, estudamos as forças (interações) que existem na Natureza e sua tentativa de unificá-las. Tais forças são em número de quatro - gravitacional, eletromagnética, fraca e forte – com as intensidades respectivas dadas por: 10-39: 1/137: 10-6: 1. Elas são mediadas (intermediadas), respectivamente, por uma partícula elementar bosônica: gráviton (G), ainda não detectada, de carga e massa nulas, e de spin dois; fóton ( ), de carga e massa nulas, e de spin um; e , de massas, respectivamente, ( ) e ( ) GeV/c2 (registre-se que: 1 GeV = 103 MeV = 109 eV), e de spin 1; e glúon (g), em número de 8, com carga de “cor” e massa nula, e de spin 1. Por sua vez, a força eletrofraca, unificação das forças eletromagnética e fraca, é mediada pela partícula bosônica Higgs (H), ainda não detectada, de carga nula e massa provável entre 92 e 114 GeV/c2 , e de spin nulo.
O fóton ( ) (do grego photo, que significa “luz”) foi cunhado, em 1926 (Nature 118, p. 874), pelo químico norte-americano Gilbert Newton Lewis (1875-1946). As partículas receberam essa denominação por parte dos físicos sino-norte-americanos Tsung-Dao Lee (n.1926; PNF, 1957) e Chen Ning Yang (n.1922; PNF, 1957), e a , recebeu essa notação por parte do físico norte-americano Steven Weinberg (n.1933; PNF, 1979). O glúon (do inglês glue, que significa “cola”) é uma partícula que mantêm os quarks [que são partículas fermiônicas, em número de seis, conhecidas como sabores (“flavours’), e existem três tipos (“cores”) de cada quark: red (r) (“vermelho”); blue (b) (“azul”); green (g) (“verde”); ] juntos, e sua existência foi proposta pela Teoria Cromodinâmica, formulada pelos físicos norte-americanos David Jonathan Gross (n.1941; PNF, 2004) e Frank Anthony Wilczek (n.1951; PNF, 2004) e, independentemente, Hugh David Politzer (n.1949; PNF, 2004), em 1973 (vide verbete nesta série). É oportuno destacar que, embora os glúons, assim como os quarks, não existam livremente, jatos de glúons foram observados, em 1981, na Alemanha, e em 1982 (Physics Letters B118, p. 203), por uma equipe de 54 físicos, da UA2 Collaboration, usando o Superproton Synchrotron (SPS) do Conseil Européen pour la Recherche Nucleaire (CERN). Note-se que o nome quark foi batizado pelo físico norte-americano Murray Gell-Mann (n.1929; PNF, 1969), em 1964, para homenagear o escritor irlandês James Augustine Aloysius Joyce (1882-1941), que escreveu em seu livro intitulado Finnegan´s Wake (Faber & Faber / UK, 1939), a seguinte estrofe: Three quarks for Master Mark. Por fim, o termo Higgs decorre do nome do físico inglês Peter Ware Higgs (n.1929) que, em 1964, formulou o hoje conhecido mecanismo de Higgs, segundo o qual as partículas e adquirem massa pela “quebra espontânea da simetria ‘gauge’” que essas partículas, juntamente com a partícula , estão sujeitas, conforme a Teoria Eletrofraca (vide verbete nesta série).
As partículas portadoras da matéria se classificam em dois tipos: hádrons e léptons. Os hádrons (do grego adros, que significa “grosso e volumoso”), nome cunhado pelo físico russo Lev Borisovich Okun (n.1929), em 1962 (Procedings of the Internacional Conference on High Energy Physics 1962, CERN, p. 845), são partículas que sofrem os quatro tipos de força (interação) e são de dois tipos: bárions e mésons. Os bárions (do grego barys, que significa “pesado”), cujo nome foi cunhado pelo físico e historiador da ciência, o holandês-norte-americano Abraham Pais (1918-2000), em 1954 (Procedings of the Internacional Conference on Theoretical Physics 1954, Kyoto, p. 157), são férmions formados por três quarks e se classificam em duas categorias: núcleons e hyperons. O termo núcleon foi introduzido em 1941 (Köngelige Danske Videnskab Selskab Matematisk-Fysiske Meddelanden 18, p. 3), pelo físico dinamarquês Christian Möller (1904-1980) para representar as partículas constituintes do núcleo atômico, ou seja: prótons e nêutrons. É oportuno destacar que o núcleo (do latim nucleus, que significa “parte interna”), foi descoberto pelo físico neozelandês Sir Ernest Rutherford – Barão Rutherford (1871-1937; PNQ, 1908), em 1911; o próton (do grego protos, que significa “primeiro”), foi também descoberto por Rutherford, em 1919, e quem, aliás, deu esse nome, em 1920; e o nêutron (nome inventado por Rutherford, em 1921), foi descoberto pelo físico inglês Sir James Chadwick (1891-1974; PNF, 1935), em 1932. Os hyperons (do grego iper, que significa “super”, “acima” ou “além de”), termo introduzido pelo físico francês Louis Leprince-Ringuet (1901-2000), em 1953 (Annual Review of Nuclear Science 3, p. 39), representam as partículas com massa intermediária entre núcleons e píons (sobre estes, ver verbete nesta série). Por sua vez, os mésons (do grego meso, que significa “médio”) receberam essa denominação, em 1939, por parte do físico indiano Homi Jehangir Bhabha (1909-1966), são bósons e formados por um par quark/antiquark. Os léptons (do grego leptos, que significa “fino” ou “pequeno”) tiveram seu nome inicialmente cunhado por Möller e Pais, em 1946 e, independentemente, pelo físico belga Léon Rosenfeld (1904-1974), em 1948, para representar qualquer partícula de massa pequena como o elétron e o neutrino. Eles são em número de seis, são férmions e não sofrem interação (força) forte.
A seguir, apresentaremos uma relação de algumas Partículas Elementares (para a relação completa, consultar o site: www.aventuradasparticulas.ift.unesp.br, versão portuguesa atualizada do projeto educacional patrocinado pelo Particle Data Group do Lawrence National Laboratory, em Berkeley), com a seguinte seqüência: nome e/ou notação, estrutura quarkônica, massa (em MeV/c2), carga (em função da carga do elétron – e), spin e data (previsão ou descoberta). É oportuno registrar que cada Partícula Elementar tem uma antipartícula correspondente (denotada com uma barra em cima da notação), com a mesma massa e spin, porém com a carga elétrica de sinal contrário.
QUARKS/ANTIQUARKS: up ( ) [4; 2e/3; ½; (p.1964)]; down ( ) [8; e/3; ½; (p.1964)]; strange ( ) [150; e/3; ½; (p.1964)]; charm ( ) [1200; 2e/3; ½ ; (p.1964; d.1974)]; bottom ( ) [4700; e/3; ½ ; (p.1974; d.1977)]; e top ( ) [175000; 2e/3; ½; (p.1974; d.1995)].

BÁRIONS/ANTIBÁRIONS: próton/antipróton (p = uud ; ) [938,27; ; ½ ; (d.1919 ; p.1928, d.1955)] ; nêutron/antinêutron ( ) [939,56 ; 0 ; ½ ; (d.1932 ; p.1928, d.1956)]; Lâmbda-zero ( ) [1115,7; 0; ½; (d.1947)]; Sigma-mais ( ) [1189,4; + e; ½; (d..1947)]; Sigma-menos ( ) [1197,4; - e; ½; (d..1947)]; Sigma-zero ( ) [1192,6; + e; ½; (d.1947)]; Xi-zero/antiXi-zero ( ) [1315; 0; ½; (d.1959; d.1960)]; Xi-menos/antiXi-menos ( ) [1321; ; ½; (d.1952; d.1960)]; Delta-mais-mais ( ) [1232; + 2 e; 3/2; (d.1953)]; Delta-mais ( ) [1232; + e; 3/2; (d.1953)]; Delta-zero ( ) [1232; 0 ; 3/2; (d.1953)]; Delta-menos ( ) [1232; - e; 3/2; (d.1953)]; Sigma estrela-mais ( ) [1383; + e; 3/2; (d.1960)]; Sigma estrela-menos ( ) [1383; - e; 3/2; (d.1960)]; Sigma estrela-zero ( ) [1383; 0; 3/2; (d.1960)]; Xi estrela-zero ( ) [1532; 0; 3/2; (d.1962)]; Xi estrela-menos ( ) [1532; - e ; 3/2; (d.1962)]; Ômega-menos ( ) [1672,5; - e; 3/2; (p.1961, d.1964)]; Lambda charmoso-mais ( ) [2290; + e; 1/2; (d.1975)]; Xi charmoso-mais ( ) [2466; + e; ½; (d.1983)].

MÉSONS/ANTIMÉSONS: píon-menos ( ) [140; - e ; 0; (d.1947)]; píon-mais ( ) [140; + e ; 0; (d.1947)]; píon-zero ( ) [135; 0 ; 0; (d.1950)]; káon-zero ( ) [498; 0; 0; (d.1951)]; káon-mais ( ) [494; + e; 0; (d.1949)]; káon-menos ( ) [498; - e; 0; (d.1949)]; antikáon-zero ( ) [498; 0; 0; (d.1951)]; eta-zero ( ) [548; 0; 0; (p.1960, d.1961)]; eta linha-zero ( ) [958; 0; 0; (d.1964)]; rho-menos ( ) [770; - e; 1; (d.1961)]; rho-mais ( ) [770; + e; 1; (d.1961)]; rho-zero ( ) [770; 0; 1; (d.1961)]; káon estrela-zero ( ) [892; 0; 1; (p.1960, d.1962)]; antikáon estrela-zero ( ) [892; 0; 1; (p.1960, d.1961)]; káon estrela-mais ( ) [892; + e; 1; (d.1961)]; káon estrela-menos ( ) [892; - e; 1; (d.1961)]; ômega-zero ( ) [782; 0; 1; (d.1963)]; phi-zero ( ) [1020; 0; 1; (d.1963)]; psi/jota ( ) [3695; 0; 1; (p.1970; d.1974)]; D-zero ( ) [1865; 0; 0; (d.1975)]; D-mais ( ) [1865; + e; 0; (d.1976)]; Úpsilon-zero ( ) [9500; 0; 0; (d.1977)]; mésonB-zero ( ) [5280; 0; 0; (d.1987)].

LÉPTONS/ANTILÉPTONS: elétron/pósitron ( ; ) [0,51; e; ½; (d.1897; p.1928, d.1932)]; neutrino-eletrônico/antineutrino-eletrônico ( ) [ ; 0; ½; (p.1931;d.1956)]; múon-menos/múon-mais ( ) [107; ; ½; (d.1936)]; neutrino-muônico/antineutrino-muônico ( ) [ ; 0; ½; (p. 1960, d.1962)]; tau-menos/tau-mais ( )[1777; ; ½; (d.1975)]; e neutrino-tauônico/antineutrino-tauônico ( ) [ ; 0; ½ ; (d.2000)].

Na conclusão deste verbete, é oportuno falar sobre partículas que foram previstas e que até agora não foram descobertas. Neste verbete, já falamos de três delas: grávitons, gentíleons (para mais detalhes sobre essas partículas, ver: Bassalo e Cattani, op. cit.) e bósons de Higgs. Agora, vejamos outras. Em verbete desta série, tratamos das partículas propostas que decorrem da Teoria da Supersimetria, desenvolvida em 1973, e segundo a qual cada partícula deverá possuir uma supercompanheira com propriedades idênticas, exceto no valor de seu spin, que vale o spin da partícula correspondente, subtraído de ½. Assim, teríamos: gravitino, fotino, wino-mais/menos, zino-zero, gluonino, squarks e sléptons. Além dessas partículas, há previsões de outras. Vejamos quais são elas.
Nos verbetes em que tratamos da contribuição ao desenvolvimento da Física, realizada pelos físicos brasileiros César (Cesare) Mansueto Giulio Lattes (1924-2005) e José Leite Lopes (1918-2006), vimos que esses dois físicos previram novos tipos de partículas elementares. Lattes, por exemplo, participando do Projeto de Colaboração Brasil-Japão, do qual fazia parte o físico japonês Shun-Ichi Hasegawa, apresentou resultados experimentais (anos respectivos entre parênteses) sobre a evidência da existência das seguintes partículas: mirim (1963), açu (1967), guaçu (1971), centauro (1973), mini-centauro (1977), geminion (1978) e chiron (1981). Leite Lopes, por sua vez, propôs, em 1975 (Revista Brasileira de Física 5, p. 37), que os léptons são formados pelos quatro quarks (u, d, s, c) e mais um “quinto quark” ( ), de carga nula e spin 1/2. Segundo Leite Lopes, os léptons massivos teriam as seguintes estruturas quarkônicas: ; . Registre-se que antes, em 1973 (Physical Review Letters 31, p. 661; Physical Review D8, p. 1240), os físicos, o indiano-norte-americano Jogesh C. Pati (n.1937) e paquistanês Abdus Salam (1926-1996; PNF, 1979), formularam a hipótese de que os léptons seriam formados de partículas de spin ½ , denominadas de preons
É ainda oportuno registrar que, em 1979 (Physics Letters B86, p. 83; 87), Haim Harari e Michael A. Shupe, em trabalhos independentes, propuseram que o elétron e seu neutrino associado, bem como os quarks u e d, são formados das partículas denominadas por eles de rishons (palavra hebraica, que significa “primeiro”), constituídas de dois tipos: T (de carga – e/3) e V (de carga nula), iniciais de Tohu Vovohu (palavras hebraicas que significam, respectivamente, “sem forma” e “vazio”). Segundo esses físicos, todas as Partículas Elementares seriam estados excitados das seguintes partículas fundamentais: . Por fim, em 1981 (Physics Letters B102, p. 319), H. Fritzsch e G. Mandelbaum apresentaram a idéia de que os quarks, os léptons e os bósons intermediários mediadores das interações (forças) seriam formados de partículas chamadas haplons (em grego, significa “simples”), de spin nulo ou ½, cuja ligação seria feita pela força hypercolor e mediada pelo “quantum” hyperglúon.