SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo


O Vocábulo Quark de Gell-Mann.

 

Em verbete desta série vimos que, em 1964, os físicos, o norte-americano Murray Gell-Mann (n.1929; PNF, 1979) e o russo-norte-americano George Zweig (n.1937) desenvolveram, independentemente, um modelo para classificar as Partículas Elementares, baseado no grupo SU(3). Segundo esse modelo (hoje conhecido como Modelo dos Quarks), os hádrons (bárions e mésons) seriam formados pela combinação de partículas que possuíam cargas fracionárias. Os bárions seriam formados por três dessas partículas, e os mésons pelo par partícula-antipartícula. Enquanto Zweig denominou tais partículas de aces, Gell-Mann chamou-as de quarks. Vejamos como Gell-Mann escolheu esse vocábulo.

                   No livro intitulado The Quark and the Jaguar: Adventures in the Simple and the Complex (W. H. Freeman and Company, 1994) [O Quark e o Jaguar (Rocco, 1994)], Gell-Mann escreve o seguinte: Em 1963, quando atribuí  o nome “quark” aos constituintes fundamentais dos núcleons, primeiro eu tinha o som da palavra, sem sua grafia, que poderia ser “kwork”. Então, em uma das minhas olhadelas ocasionais em Finnegans Wake de James Joyce (publicado em 1939), encontrei a palavra quark na frase: “Three quarks for Muster Mark”. Como “quark” (que significa, entre outras coisas, o pio de uma gaivota), tinha a intenção clara de rimar com Mark, assim como “bark” e outras palavras semelhantes, eu tinha encontrado uma desculpa para pronunciá-la como “kwork”. ... De qualquer modo, o número três ajusta-se perfeitamente ao modo pelo qual os quarks ocorrem na natureza. É oportuno registrar que, em seu modelo, Gell-Mann havia previsto a existência de três quarks: up (u), down (d) e strange (s). Registre-se, também, que o verso escolhido por Gell-Mann, é completado por: “Sure he hasn´t got  much of a bark. / And sure any he has it´s all beside the mark”.

                   Sobre o nome quark escolhido por Gell-Mann, é ainda oportuno registrar o comentário feito pela física brasileira Maria Cristina Batoni Abdalla (n.1954) em seu livro intitulado O Discreto Charme das Partículas Elementares (EDUNESP, 2006). Vejamos esse comentário. Na verdade, a palavra quark encontrada no verso de Joyce não carrega o sentido original, que vem do verbo to caw ou ainda do dialeto to quawk, que significa piar ou grasnar (sons emitidos por alguns pássaros). Como muitos trechos da obra de Joyce se passam em pubs, neste verso, o autor escreveu quarks para imitar a pronúncia irlandesa da palavra quarts. O sentido correto seria: “Três quartos (de cerveja) ao Senhor Mark!” (“Three quarts for Muster Mark”). Registre-se que, para fazer esse comentário, a autora contou com a colaboração do Professor John Milton, da Universidade de São Paulo.