SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo


Dirac e sua Rejeição pela Cambridge University Press e pelo CNPq.

 

Em alguns verbetes desta série falamos das diversas contribuições dadas ao entendimento da Física Quântica por parte do físico inglês Paul Adrien Maurice Dirac (1902-1984; PNF, 1933), com destaque para a Estatística Quântica (1926), a Teoria Quântica da Emissão e Absorção da Radiação (1927), marco inicial da Eletrodinâmica Quântica, e a Teoria Relativística do Elétron (1928). Algumas dessas contribuições foram reunidas por ele em um célebre livro intitulado The Principles of Quantum Mechanics, publicado pela Oxford University Press, em 1930, com uma segunda edição, em 1934. Sobre esse livro, é oportuno tecer alguns comentários.

                   Segundo nos conta o físico norte-americano Sheldon Lee Glashow (n.1932; PNF, 1979) em seu livro The Charm of Physics (Touchstone Book, 1991), Dirac enviou o manuscrito (redigido de próprio punho) desse livro para a Cambridge University Press que, no entanto, o rejeitou. Em retaliação a essa desconsideração, Dirac enviou à Editora rival daquela, a Oxford University Press, que então o publicou. É interessante registrar que, nesse livro, Dirac apresenta a hoje famosa função delta de Dirac () com todas as suas propriedades, as quais havia demonstrado pela primeira vez, em 1927 (Proceedings of the Royal Society of London A113, p. 621).

                   Ainda é oportuno registrar que uma desconsideração maior do que essa também foi sofrida por Dirac, desta vez, por parte de um “cientistocrata” do então Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). O físico brasileiro Mário Novello (n.1942), no final da década de 1970, convidou o físico austríaco Leopold Halpern (1925-2006), um dos últimos colaboradores de Dirac, para visitar o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro. Aproveitando a presença dele no Brasil, o Novello mandou um convite para o Dirac. Para oficializar esse convite, Mário fez um pedido de ajuda ao CNPq. Ao receber esse pedido, aquele “cientistocrata  solicitou que Dirac enviasse o seu “curriculum vitae”. Dirac mandou dizer o seguinte: Recebeu o Prêmio Nobel de Física de 1933, escreveu um livro sobre Mecânica Quântica, e deu algumas contribuições ao desenvolvimento da Física. O “cientistocrata” indeferiu a vinda de Dirac, porque seu “curriculum” era muito sumário. Agradeço aos meus amigos, os físicos brasileiros Roberto Aureliano Salmeron (n.1922), Francisco Caruso Neto (n.1959), Sérgio Joffily (n.1942), e ao próprio Novello, pelo registro desse lamentável episódio.