SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo


Mario Novello e a Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação.

 

Em 2008, por ocasião da comemoração dos 30 anos da Primeira Escola de Cosmologia e Gravitação, ocorrida no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, seu idealizador, meu estimado amigo, o físico brasileiro Mario Novello (n.1942), escreveu o texto intitulado 30 Anos: Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação (ICRA, CBPF, MCT), no qual, em duas línguas (português e inglês), descreve a sua saga em criar essa hoje internacional Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação (EBCG). Neste verbete, vou destacar alguns aspectos da vida científica desse importante cosmólogo brasileiro, de reconhecimento internacional, bem como dessa sua saga.

                   Conforme escrevi em verbete desta série, conheci o Novello na Universidade de Brasília (UnB), em 1965, quando estávamos terminando o Curso de Bacharelado em Física. Antes, ele realizava o Bacharelado em Física na Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), no Rio de Janeiro, quando ocorreu o Golpe Militar de 1964. Em virtude desse ato violento, a FNFi foi fechada e a turma do Novello foi transferida para a UnB, graças ao empenho dos físicos brasileiros, Roberto Aureliano Salmeron.(n.1922) e Jayme Tiomno (n.1920) que dirigiam, respectivamente, o Instituto Central de Ciências e o Instituto Central de Física, da Universidade Utópica de Darcy Ribeiro.   

                   Foi em 1965 que o Novello, em meu entendimento, começou seu fascínio pelas Relatividades Einstenianas quando, ao chegar a nossa “república” onde morávamos, em cima da Padaria Bambina, na Avenida W-3 Sul, com entrada pela rua W-2 Sul, mostrou-me entusiasmado o livro que acabara de adquirir, Principles of Modern Physics (McGraw-Hill Book Company, 1959), do físico norte-americano Robert Benjamin Leighton (1919-1997), e que trata daquelas Relatividades logo em seu primeiro Capítulo.

                   Com o término da UnB, ainda em 1965 [para detalhes desse crime de lesa-universidade, ver o livro do Professor Salmeron: A Universidade Interrompida: 1964-1965 (EDUnB, 1999/2007)], Novello voltou para o CBPF onde concluiu seu Mestrado em Física, em  1968, sob a orientação do físico brasileiro José Leite Lopes (1918-2006), defendendo a Monografia intitulada Teoria das Distribuições no Eletromagnetismo Clássico. Em 1969, foi para a Universidade de Genebra, na Suíça, onde obteve seu Doutoramento, em 1972, sob a direção do físico suíço Josef Maria Jauch (1914-1974), com a Tese de título Álgebre de l´Espace-Temps. É interessante registrar que Jauch havia co-orientado, juntamente com o físico austro-suíço-norte-americano Wolfgang Pauli Junior (1900-1958; PNF, 1945), o Doutoramento de Leite Lopes, na Universidade de Princeton, em 1946. Ainda em 1972, Novello realizou seu primeiro Pós-Doutoramento, na Universidade de Oxford, na Inglaterra, com o famoso cosmólogo inglês Dennis W. Sciama (n.1926).    

                   Em 1976, Novello iniciou sua saga em busca da formação de um grupo de excelência no Brasil para estudar a Cosmologia, de maneira pioneira e sistemática, criando no CBPF, o Grupo de Cosmologia e Gravitação (GCG). Foi na consolidação desse grupo que o Novello e seus alunos (posteriormente, colaboradores) realizaram uma série de trabalhos importantes dos quais destacamos o mais ambicioso de seus programas de pesquisa, qual seja, o que o próprio GCG denominou de Programa do Universo Eterno (PUE). Esse programa originou-se de um trabalho publicado pelo Novello e um de seus alunos, o físico brasileiro José Martins Salim (n.1951), em 1979 (Physical Review D20, p. 377), no qual eles negaram o Princípio da Equivalência Einsteniano (sobre esse princípio, ver verbete nesta série) como um gerador de leis físicas. Segundo o Relatório do GCG preparado pelo Novello, em julho de 2002 (CBPF/LAFEX), uma consequência direta dessa negação, é a de que processos de interação direta entre os campos da física e a curvatura do espaço-tempo tornam-se possíveis e devem se constituir de modos normais de acoplamentos de campos. O PUE, desenvolvido em outros artigos escritos por Novello, alunos e colaboradores estrangeiros, teve como resultado a formulação do Dynamical Eternal Universe Scenario (DEUS). Este novo e inédito modelo cosmológico apresenta uma solução analítica que possui ricochete (“bouncing”), ou seja, é um modelo em que o Universo possui uma fase anterior de colapso, onde o volume total do espaço diminuiu com o tempo, atingindo um valor mínimo e, depois, passou a se expandir. Registre-se que o DEUS foi ainda discutido pelo Novello e pelo físico alemão Hans Heintzmann (n.   ) em 1984 (General Relativity and Gravitation 16, p. 535), e pelo Novello em seu livro Cosmos et Contexte (Masson, 1987) [com tradução brasileira, com o mesmo título: Cosmo e Contexto (Forense Universitária, 1988)], e nos artigos: The Program of an Eternal Universe, publicado no Vth. Brazilian School of Cosmology and Gravitation (World Scientific, 1987); e Dynamical Eternal Universe Scenario, publicado no livro Frontier Physics – Essays in Honour of Jayme Tiomno (Editors: S. MacDowell, H. M. Nussenzveig and R. A. Salmeron, World Scientific, 1991).

                   Ainda no citado Relatório de 2002, há destaque para três outros trabalhos oriundos do PUE. No primeiro deles, escrito em 1990 (Classical and Quantum Gravity 7, p. 51),  Novello, Salim e o físico brasileiro Luiz Alberto Rezende de Oliveira (n.     ), examinaram o tipo de interação entre os campos gravitacional e eletromagnético, em um Universo conformalmente plano, como indicava o modelo cosmológico que Novello e colaboradores haviam desenvolvido. Nesse exame, observaram que a interação referida acima era capaz de explicar o fenômeno do desvio para o vermelho da radiação cósmica através do exame da propagação dos fótons por via de geodésicas nulas. O principal resultado desse estudo está associado com a questão do equilíbrio termodinâmico do gás de fótons e, em particular, a questão da não-conservação do número total de fótons do Universo. Além disso, ainda naquele trabalho, foi rediscutida a radiação cósmica de fundo de micro-onda (RCFM) (“Cosmic Microwave Background” - CMB) (sobre essa radiação, ver verbete nesta série) e, uma consequência natural dessa rediscussão foi a análise dos efeitos do processo de criação de fótons por um Universo em expansão em um modelo cosmológico que não contém o big bang (sobre essa “explosão inicial” do Universo, ver verbete nesta série). A análise termodinâmica deste fenômeno foi objeto do segundo e terceiro artigos, ainda de 1990 (Physical Review D47, pgs. 8; 3165), escritos por  Novello e pelo físico brasileiro Sérgio Luiz Schubert Duque (n.    ).                        

                   É interessante registrar que, além do PUE, o Novello, por intermédio do GCG [que foi transformado, em 2003, no Instituto de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica (ICRA)] ou independentemente desse Grupo, desenvolveu e desenvolve outros importantes projetos, com a publicação de uma série de artigos, dos quais destacamos alguns deles (para uma relação completa desses artigos, ver o citado Relatório 2002 e seu Currículo Lattes). Por exemplo, na década de 1960: em 1969 (Nuovo Cimento A164, p. 954), Novello estudou as equações de Dirac em um espaço de Weyl; década de 1970: em 1970 (Revista Mexicana de Física 19, p. 229), Novello e Leite Lopes investigaram as transformações de ‘gauge’ e os operadores de momento de multipolo generalizado; em 1971 (Journal of Mathematical Physics 12, p. 1039; Lettere al Nuovo Cimento 1, p. 252), Novello, respectivamente, mostrou ser a Gravitação uma consequência da auto-interação de campos gama, e explicou a origem da massa dos neutrinos; em 1972 (Journal of Physics A: Mathematical and General 5, p. 1488), Novello investigou a dependência cosmológica das interações fracas; em 1973 (Physical Review D8, p. 2398), Novello mostrou que as forças eletromagnética e fraca são consequência da auto-interação de campos gama; em 1975 (Lettere al Nuovo Cimento 13, p. 74), Novello e a física brasileira Lígia Maria Coelho de Sá Rodrigues (n.   ) investigaram as regiões do espaço longe das singularidades cosmológicas; em 1976 (Journal of Physics A: Mathematical and General 9, p. 547), Novello, Salim, e os físicos brasileiros Carlos Augusto Pinto Galvão (n.   ) e Ivano Damião Soares (n.1946) analisaram a dinâmica dos monopolos gravitacionais magnético e elétrico; em 1977 (Physics Letters A61, pgs. 293; 441), Novello investigou, respectivamente, o modelo cosmológico não-homogêneo estático e a absorção de ondas gravitacionais por um espaço-tempo vazio excitado; em 1978 (Astrophysical Journal 225, p. 719), Novello e o físico brasileiro Marcelo José Rebouças (n.1949) estudaram a estabilidade de um Universo girante; e em 1979 (Physical Review D20, p. 377), Novello e Salim encontraram raios não-singulares para o nosso Universo.

                   Década de 1980: em 1980 (Acta Physica Polonica B11, p. 3), Novello e o físico brasileiro J. B. S. D´Olival (n. ) investigaram a Cosmologia Viscosa Não-Linear; em 1981 (Revista Brasileira de Física 11, p. 623), Novello, Heintzmann e. E. Schrüfer analisaram a propagação da radiação Synchro-Cherenkov; em 1982 (Physics Letters A89, p. 266), Novello, Heintzmann e o físico brasileiro Alberto Franco de Sá Santoro (n.1941) discutiram a possibilidade de a violação da paridade ser um efeito de evolução cosmológica; em 1983 (Physical Review D27, p. 779), Novello, Soares e Tiomno analisaram o movimento geodésico e o confinamento do Universo de Gödel; em 1984 (Lettere al Nuovo Cimento 40, p. 317), Novello e Rodrigues estudaram a bifurcação no começo do Universo; em 1985 (Physics Letters 109A, p. 454), Novello e Oliveira investigaram o comportamento estocástico do universo de de Sitter; em 1986 (Journal of Modern Physics A1, p. 943),  Novello e Oliveira trataram de um Universo do tipo “marionete”; em 1987 (General Relativity and Gravitation 19, pgs. 1003; 1251), Novello e os físicos brasileiros Carlos Augusto Romero Filho (n.    ) e André Lemos Velloso (n.   ) examinaram, respectivamente, o espectro de soluções cósmicas devido ao acoplamento gravitacional não-mínimo, e a conexão entre observadores gerais e o potencial de Lanczos; em 1988 (Modern Physics Letters A4, p.169), Novello, os físicos, o brasileiro Ignácio Alfonso de Bediaga e Hickman (n.1954) (de origem espanhola) e os italianos M. Gasperini e Enrico Predazzi (n.1935) apresentaram uma descrição geométrica da hadronização em um espaço-tempo curvo; e em 1989 (Classical and Quantum Gravity 6, p. 1893), Novello e os físicos, a francesa Nathalie Deruelle e os brasileiros Isaías Costa (n.1957) e Nami Fux Svaiter (n.   ) apresentaram um exemplo solúvel de campos quânticos em espaços-tempos cosmológicos.       

                   Década de 1990: em 1990 (Classical and Quantum Gravity 7, p. 51), Novello, Salim e o físico brasileiro Henrique Pereira de Oliveira investigaram a conservação do número de fótons em um Universo em expansão; em 1991 (Fortschritte der Physik 39, p. 8), Novello, Svaiter e os físicos brasileiros Nelson Pinto Neto e Luciane Rangel de Freitas desenvolveram a Teoria de Campos de spin 2 usando as variáveis de Fierz; em 1992 (Modern Physics Letters A7, p. 5),  Novello, Svaiter e a física brasileira Maria Emília Xavier Guimarães estabeleceram as condições para que corpos materiais possam se propagar em curvas fechadas do tipo tempo; em 1993 (Physical Review D48, p. 5017), Novello e a física brasileira Martha Cristina Motta da Silva elaboraram um modelo de Universo que admite em seu interior uma região limitada, a qual seria identificada com uma parte do universo de Gödel; em 1994 (Physics Letters A187, p. 356), Novello e o físico francês  E. Elbaz investigaram a geração de campos eletromagnéticos no Universo; em 1995 (International Journal of Modern Physics D4, p. 339), Novello e os físicos russos M. Yu. Konstantinov e Vitaly N. Melnikov fizeram uma investigação numérica da geometria integrável de Weyl em uma cosmologia multidimensional; em 1996 (Physical Review D54, p. 2578), Novello, Salim, Motta da Silva e o físico brasileiro Renato Klippert Barcellos apresentaram uma análise quântica da formulação canônica da cosmologia padrão; em 1997 (Physics Letters A225, p. 364), Novello, Freitas, Salim e a física brasileira Regina Célia Arcuri estudaram as equações estocásticas para campos de spin 2 em uma formulação quase Maxwellina; 1998 (International Journal of Modern Physics D7, p. 779), Novello e os físicos, o brasileiro V. B. Bezerra e o russo Vladimir M. Mostepanenko analisaram os efeitos do vácuo quântico de um campo escalar não-conforme em um modelo cosmológico não-singular; e em 1999 (Physics Letters A254, p. 245), Novello, Freitas e os físicos brasileiros Vitório Alberto de Lorenci e Odylio D. Aguiar investigaram a velocidade das ondas gravitacionais.                              

                   Década de 2000: em 2000 (Physical Review D61, p. 045001), Novello, De Lorenci, Salim e Klippert mostraram que processos não lineares no Eletromagnetismo poderão levar a um comportamento confinante do fóton: o buraco negro eletromagnético; em 2001 (Physical Review D64, p. 075010), Novello, Mostepanenko, e os físicos norte-americanos E. Fischbach e D. E. Krause analisaram novas limitações das interações de Yukawa de curto-alcance das forças atômicas microscópicas; em 2002 (Physical Review D65, p. 063501), Novello, De Lorenci, Klippert e Salim investigaram a Eletrodinâmica Não-Linear e a Cosmologia do tipo Friedmann-Robertson-Walker; em 2003 (Classical and Quantum Gravity 29, p. 859), Novello, Salim, De Lorenci, e os físicos brasileiros S. E. Perez Bergliaffa e Barcellos investigaram o análogo de buracos negros em dielétricos fluindo; em 2004 (International Journal of Modern Physics A13, p. 1405), Novello investigou a massa dos grávitons; em 2005 (Gravitation and Cosmology 11, p. 1), Novello, e os físicos franceses S. V. Chervon e Roland Triay analisaram uma Cosmologia exata em um cenário inflacionário; em 2006 (Gravity and Cosmology 12, p. 273), Novello e os físicos russos V. D. Ivashchuk, S. A. Kononogov e Melnikov encontraram soluções não-singulares em uma Cosmologia multidimensional com um fluido perfeito, e a consequente aceleração e variação da constante gravitacional G; em 2007 (Europhysics Letters 80, p. 41001), Novello apresentou uma construção de férmions lineares Diracianos em termos de spinores não-lineares Heisenbergianos; em 2008 (Journal of Physics A: Mathematical and General 41, p. 30400), Novello e o físico francês J. P. Gazeau discutiram a questão da massa em espaços-tempo anti-de Sitter; e em 2009 [Trends in PhysicsFestschrift in homage to Prof. José Maria Filardo Bassalo (Editors: M. S. D. Cattani, L. C. B. Crispino, M. O. C. Gomes e A. F. S. Santoro), Livraria da Física] Novello e P. I. Trajtenberg apresentaram uma descrição geométrica de campos de spin 2.       

                   Agora, vejamos a saga de Novello para a realização das EBCG. Segundo conta em seu livro 30 Anos: Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação que citamos acima, a ideia de criar uma Escola de Cosmologia e Gravitação no Brasil, veio-lhe à mente depois que participou da Cargese Summer School, realizada na cidade francesa de Cargèse, na Córsega, no litoral do mar Mediterrâneo, no verão de 1971. Nessa Escola, cujo tema central era a Cosmologia, compareceram grandes nomes da Cosmologia Mundial, dentre os quais, destacavam-se os ingleses George Francis Rayner Ellis (n.1939) e Martin Rees (n.1942), que haviam estudado a RCFM: Ellis, com o também cosmólogo inglês Stephen William Hawking (n.1942), em 1968 (Astrophysical Journal 152, p. 25); e Rees, com Sciama, em 1969 (Nature 213, p. 374). É oportuno ressaltar que a descoberta da RCFM (em consequência do big bang) pelos radioastrônomos norte-americanos Arno Allan Penzias (n.1933; PNF, 1978) (de origem alemã) e Robert Woodrow Wilson (n.1936; PNF, 1978), em 1965 (Astrophysical Journal 142, p. 419), despertou, inicialmente de maneira tímida, o interesse de físicos para o estudo da Cosmologia, dentre os quais se encontrava o Novello. Ressalte-se, também, que esse seu interesse, embora criticado por alguns físicos brasileiros, teve o integral apoio de Salmeron.

                   Com essa ideia em mente, Novello voltou ao Brasil, no segundo semestre de 1972, depois de concluir seu Doutoramento (com Jauch), e realizar seu primeiro Pós-Doutoramento (com Sciama), respectivamente, na Universidade de Genebra e na Universidade de Oxford, conforme falamos acima e, para materializá-la, criou, em 1976, o Grupo de Cosmologia e Gravitação (GCG), no CBPF. A partir da criação desse Grupo, Novello começou o processo de formação de físicos para a sua consolidação, como, por exemplo, orientando as Teses de Mestrado de Lígia Rodrigues e Galvão, em 1974; de Salim, em 1976; e de Rebouças, em 1977; e as Teses de Doutorado de Ivano Soares e de Galvão, em 1976. Com o objetivo de aprimorar os físicos brasileiros de qualquer parte do Brasil (inclusive de seu próprio grupo) interessados em Cosmologia e Gravitação, Novello começou, então, a organizar as Escolas de Cosmologia e Gravitação (ECG), no Rio de Janeiro e sob o patrocínio do CBPF. A I Escola de Cosmologia e Gravitação realizou-se em 1978, com cursos e seminários ministrados por Novello, Heintzmann, Ivano e pelos físicos brasileiros Colber Gonçalves de Oliveira, Marcos Duarte Maia (n.1940), Antonio Fernandes da Fonseca Teixeira (n.1936), Ruben Aldrovandi, José Antonio de Freitas Pacheco (n.1942) e M. Gomide (). Essa Primeira Escola só teve a participação de um físico estrangeiro: Heintzmann. Registre-se que os assuntos ministrados nesta e nas demais Escolas que trataremos a seguir, podem ser vistos nos textos de Novello citados acima e que tratam das mesmas, assim como o nome dos ministrantes que não forem citados nominalmente.

                   A II Escola de Cosmologia e Gravitação, ocorrida em 1979, teve a participação de dez físicos brasileiros [Novello, Aldrovandi, Maia, Colber, Pacheco, Ivano, T. Kodama, Pram S. Srivastava (de origem indiana), Henrique Fleming (n.1938), e P. Rodrigues], bem como a de oito físicos estrangeiros, na ministração de cursos. É oportuno registrar que, nessa Escola, deram aulas os famosos físicos russos Isaak Markovich Khalatnikov (n.1919) e Evgenil Mikhailovich Lifshitz (1915-1985); este se celebrizara por escrever, junto com o físico russo Lev Davidovich Landau (1908-1968; PNF, 1962), o mundialmente conhecido Curso de Física Teórica, composto de nove volumes que o próprio Landau dizia que era o “mínimo teórico” que qualquer físico, teórico ou experimental, deveria conhecer para se tornar um pesquisador.    

                   A partir da III Escola de Cosmologia e Gravitação, em 1982, foi formado um Comitê Científico (CC) para organizá-la, composto de Novello, Pacheco, Colber, Ivano e do físico brasileiro Antonio Luciano Leite Videira (n.1936), com cursos ministrados por cinco brasileiros e sete estrangeiros. Dentre os estrangeiros, destacou-se o norte-americano Bryce S. DeWitt (n.1923) que era bastante conhecido por haver, em 1967 (Physical Review 160, p. 1113), proposto uma equação de Schrödinger para o espaço-tempo curvo da Relatividade Geral, tendo como base uma ideia do também físico norte-americano John Archibald Wheeler (1911-2008) na década de 1950. Em vista disso, essa proposta passou a ser conhecida como equação de Wheeler-DeWitt.  

                  A IV Escola de Cosmologia e Gravitação, em 1984, teve o CC formado por Novello, Aldrovandi, Lígia e Salim, com cursos ministrados por Novello e por mais seis estrangeiros, dentre os quais a francesa Yvonne Choquet-Bruhat, Membro da Academia Francesa de Ciências e o norte-americano Edward W. Kolb, do FERMILAB. A V Escola de Cosmologia e Gravitação, ocorrida em 1987, com o CC constituído por Novello, Lígia, Costa e o físico brasileiro N. O. Santos, com cursos oferecidos por Novello, e por mais oito estrangeiros. Foi nessa Escola que Novello apresentou o seu Modelo de Universo Eterno; ela teve a participação de Ellis e a do conceituado astrofísico indiano Jaynat Vishu Narlikar (n.1938) que se notabilizou por haver, em 1977 [Annals of Physics (NY) 107 p. 325], generalizado as equações de Einstein da Relatividade Geral. A VI Escola de Cosmologia e Gravitação, em 1989, com o CC formado por Novello, Luiz Antonio Oliveira e A. J. Accioly, teve cursos oferecidos por Novello e o brasileiro F. Guerra, e mais seis estrangeiros, dentre eles a francesa Deruelle que apresentou a Teoria Quântica de Campo do Universo Eterno Novelliano.      

                   De 1993 em diante, as ECG passaram a ser internacionalizadas (com a participação de físicos estrangeiros em seu CC) e passaram a incluir a palavra Brasileira em seu título. Assim, aconteceu a VII Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação, em 1993, com o seguinte CC: Novello, Romero, Accioly e os físicos, o chinês Fang Li Zhi e os franceses Elbaz e Triay. Nessa Escola, os Cursos foram ministrados por Novello e mais oito estrangeiros, dentre os quais, o russo Melnikov, parceiro de Novello em alguns trabalhos, o também russo A. D. Dolgov, conhecido por haver, em 1992 (Physics Reports 220, p. 309), estudado a bariogênse, ou seja, o processo pelo qual é gerado um excedente de matéria em relação à antimatéria, e o iraniano Bahram Mashhoon que, em 1974 (Physical Review D10, p. 1059), havia analisado o acoplamento gravidade-rotação-helicidade para a luz e, ainda em 1993 (Physics Letters A181, p. 353), se tornaria famoso por haver, em parceria com Jeffrey M. Cohen, estudado o efeito gravitomagnético sobre relógios padrões em órbita em torno de um corpo astronômico girante, e que ficou conhecido como efeito gravitomagnético ou efeito relógio (ver verbete nesta série). A VIII Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação, em 1995, teve o CC formado por Novello, Elbaz, Triay, Melnikov, Kolb e o físico brasileiro Tyrso Villela Neto (n.1958), com aulas ministradas por Novello e Pinto Neto e mais oito estrangeiros, dentre os quais Ellis, Melnikov e os físicos, o norte-americano Robert H. Brandenberger que havia demonstrado, em 1984 (Nuclear Physics B245, p. 328), que as perturbações primordiais em uma Cosmologia Inflacionária são geradas por flutuações quânticas e o canadense William George Unruh (n.1945). Este se tornara reconhecido mundialmente por haver, em 1976 (Physical Review D13, p. 2720), juntamente com os físicos, o inglês Paul C. W. Davies (n.1946) e o norte-americano Stephen A. Fulling, descoberto a famosa radiação de Fulling-Davies-Unruh, criação de um par de partícula e antipartícula fora do horizonte de eventos de um buraco negro (ver verbete nesta série).     

                   A IX Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação, em 1998, conservou o CC anterior, sendo os Cursos conduzidos por Novello e Srivastava, e mais oito estrangeiros, com destaque para o futuro Prêmio Nobel de Física de 2006, o norte-americano George Fitzgerald Smoot (n.1945), que falou do trabalho que o levaria ao Nobelato, junto com o também norte-americano John Cromwell Mather (n.1946), qual seja, a anisotropia da RCFM, observada em 1992 (Astrophysical Journal Letters 396, pgs. L1; L7; L13) pela equipe do satélite Cosmic Background Explorer (COBE), da qual fazia parte Mather e Smoot (ver verbete nesta série). Ainda deram aulas nessa Escola três famosos físicos: o israelense Jacob D. Bekenstein () (de origem mexicana) que, em 1972 (Lettere al Nuovo Cimento 4, p. 737), havia sugerido que a área do horizonte de eventos de um buraco negro fosse a medida de sua entropia, cuja fórmula foi deduzida por Hawking, em 1975 (Communications in Mathematical Physics 43, p. 199), e hoje conhecida como a fórmula da entropia de Bekenstein-Hawking; o germano-canadense Werner Israel (n.1931) que, em 1967 (Physical Review 164, p. 1776), havia encontrado nas equações de Einstein uma solução indicando que um objeto colapsado estático deve ser esférico; e o russo Aleksandr A. Starobinsky (n.1950) que, em 1979 (Pis´ma v Zhurnal Eksperimental´noi I Theoreticheskoi Fiziki 30, p. 719), formulou o primeiro modelo cosmológico inflacionário.  

                   Em 2002, foi realizada a X Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação, com Tyrso sendo substituído por Bergliaffa, no CC anterior. Nessa Escola, além de Novello, Svaiter e Bergliaffa, ministraram aulas 17 estrangeiros, dentre os quais Melnikov e Mostepanenko, parceiros de Novello em vários artigos, e o italiano Remo Ruffini (n.1943) que, em 1970 (Bulletin of the American Physical Society 15, p. 76), juntamente com Wheeler, havia conjecturado o hoje famoso Teorema: O buraco negro não tem cabelo, segundo o qual o buraco negro é um objeto extremamente simples quando visto de fora, já que ele só pode influenciar os objetos ao seu redor por intermédio de sua massa, carga e spin, e nada mais. Registre-se que Ruffini realizou trabalhos com Tiomno, quando este foi Professor Visitante da Universidade de Princeton, no período 1971-1972.   

                   O CC anterior foi mantido nas duas seguintes Escolas: a XI Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação, em 2004, e a XII Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação, em 2006. Na Décima Primeira, além de Novello, Pinto Neto, Rebouças e Bergliaffa, ministraram Cursos vinte estrangeiros. Dentre eles, Ruffini e o português João Carlos Rosa Magueijo (n.1967) que havia, em 1999 (Physical Review D59, p. 043516), juntamente com o norte-americano Andréas Albrecht, proposto o modelo VSL (“Varying Speed Light”), muito bem discutido por magueijo em seu livro Faster than the Speed Light (Perseus Publishing, 2002) (com tradução portuguesa, em 2003, pela Gradiva). Na décima Segunda, ao lado dos brasileiros Aldrovandi, J. P. Beltrán Almeida e José Geraldo Pereira, 26 físicos estrangeiros também ministraram aulas, dentre eles, alguns que já haviam participado de outras Escolas, como Ruffini e Belinski, bem como os parceiros de Novello: Triay, Gazeau, Ivashchuk e Melnikov, além do físico russo V. Mukhanov. Este e Brandenberger haviam discutido, em 1992 (Physical Review Letters 68, p. 1969), a possibilidade de obter inflação em um Universo não-singular do tipo Novelliano.

                   No ano passado, em 2008, realizou-se a XIII Escola Brasileira de Cosmologia e Gravitação, com a inclusão de Ruffini no CC de 2006. Além de Novello e Tyrso, essa Escola contou com a participação de 14 estrangeiros sendo que, alguns deles, como Starobinsky, Narlikar, Belinski, Ruffini e Melnikov, voltaram a contribuir com novos Cursos, diferentes dos que haviam ministrado em Escolas anteriores.  

                   Concluindo este verbete, é interessante salientar que Novello escreveu novos livros de divulgação da Cosmologia, dando continuidade ao livro de 1987, referido anteriormente. Com efeito, em 1997, publicou o livro O Círculo do Tempo: Um olhar científico sobre viagens não-convencionais no tempo (Campus), e re-editado, em 2005, com o título A Máquina do Tempo: Um Olhar Científico (Jorge Zahar). Ainda em 2005, ele escreveu Os Jogos da Natureza (Campus), no qual discute a origem do Universo, os buracos negros, a evolução das estrelas e outros mistérios da Natureza, na medida em que a personagem Maria Luisa (sua filha?) descreve seus sonhos sobre esses assuntos. Em 2006, publicou o livro intitulado O Que é Cosmologia? A Revolução do Pensamento Cosmológico (Jorge Zahar), no qual identifica a função da Cosmologia como uma re-fundação da Física.

                   É ainda oportuno salientar que Novello recebeu, em 2004, o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Lyon, na França, por seus estudos sobre modelos cosmológicos sem singularidade; em 2006 recebeu um prêmio do CBPF por ser o cientista que mais orientou Teses (Mestrado e Doutorado) em toda a história dessa instituição de pesquisa; e, em 2008, foi nomeado Cesare Lattes ICRANet Professor pelo Comitê Científico do International Center for Relativistic Astrophysics (ICRANet), presidido pelo Prêmio Nobel de Física de 2002, o cosmólogo italiano Riccardo Giacconi (n.1931).