SEARA DA CIÊNCIA
CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Bassalo


Fermi e os Extraterrestres (ETs).

 

Em alguns verbetes desta série, relatei alguns fatos curiosos da vida do físico ítalo-norte-mericano Enrico Fermi (1901-1954; PNF, 1938). Neste verbete, tratarei do que ele pensava sobre os ETs. Segundo o físico argentino-brasileiro Jorge Ernesto Horvath (n.1959) [O ABCD da Astronomia e Astrofísica (Livraria da Física, 2008)], no início da década de 1950, o astrônomo e astrofísico norte-americano Frank Donald Drake (n.1930) começou a pesquisar sobre a possibilidade de existirem civilizações extraterrestres tecnicamente capazes de viajar no espaço sideral. É interessante ressaltar que Drake, já aos oito (8) anos de idade, pensou na possibilidade de haver vida em outros planetas, sem, no entanto, comentar com seus familiares e nem com seus professores. Ele reforçou essa sua conjectura, em 1951, depois de ouvir uma palestra do astrofísico russo-norte-americano Otto Struve (1897-1963) (en.wikipedia.org/wiki/Frank_Drake). Ainda é interessante observar que, no Século 15, o astrônomo, matemático e filósofo alemão, o Cardeal Nicolau de Cusa (1401-1464) já falava na possibilidade da pluralidade dos mundos habitados, ideia essa defendida, também, pelo filósofo italiano Giordano Bruno (1548-1600), em 1584 (vide verbete nesta série).    

                   Em vista dessa conjectura, Fermi colocou a seguinte questão: como o tempo que uma civilização leva para se desenvolver e viajar pelo espaço sideral, possivelmente colonizando (grifo de Horvath) planetas na sua passagem, é muito menor que o tempo disponível para a evolução dos planetas (por exemplo, nosso planeta Terra formou-se há cerca 4,6 bilhões de anos; e a origem da vida terrestre, em menos de 500 milhões de anos) de uma galáxia, já deveríamos ter recebido a visita e ser colonizado por ETs há muito tempo. Como isso ainda não aconteceu, Fermi então perguntou: onde estão eles?

                   Esse problema de Fermi já teve algumas respostas, no entanto, também puramente conjecturais. Por exemplo, em 1969, o escritor suíço Erich von Däniken (n.1935) em seu famoso livro: Eram os Deuses Astronautas? (Edições Melhoramentos), afirmou que os ETs já visitaram a Terra. Essa afirmação é baseada em uma série de registros que ele levantou (por exemplo: as estátuas da Ilha de Páscoa, no Chile; o mapa do almirante turco Piri Reis; marcas no solo rochoso da planície de Nazca, no Peru; inscrições no Templo Maia, situado em Palenque, no México; plaquetas assírias; desenhos rupestres, na Rodésia) que, segundo ele, só poderiam ser feitos por ETs, já que os terrestres não tinham condições de os realizarem. Contudo, R. Fiebcaist em seu livro intitulado Nem Deuses, Nem Astronautas... (Edições Melhoramentos), publicado em 1973, contesta essa interpretação de von Däniken, afirmando que tais registros nada mais são do que os resquícios deixados por diversas civilizações que existiram e se destruíram em nosso planeta. 

                   O próprio Horvath, no livro citado acima, apresenta cinco conjecturas para o problema de Fermi: 1) A viagem é muito longa e os ETs nunca a empreenderam; 2) Os ETs não vieram porque não quiseram vir; 3) As civilizações ETs ainda não chegaram porque são novas; 4) Vieram sim, mas foram embora sem deixar sinais; 5) Quando as civilizações começam a ter condições de viajar pela galáxia, é porque dominam a energia nuclear e outras tecnologias que acabam provocando sua própria destruição (conjectura de Fiebcaist).

                   Infelizmente, para Fermi, que morreu em 1954, somente a partir de 1961, é que seu questionamento começou a ter um caráter organizacional. Em 1960, Drake já havia tentado, por intermédio de micro-ondas, contato com os ETs. Contudo, ele só conseguiu “ouvir” a frequência do hidrogênio (H), que é o elemento mais comum no Universo. Essa sua pesquisa, no entanto, despertou o interesse pela Busca da Inteligência Extraterrestre (SETI: “Search for Extraterrestrial Intelligence”).

                   O interesse pela busca dos ETs se concretizou no começo de novembro de 1961, quando vários cientistas se reuniram no Observatório Green Bank, no oeste do Estado de Virgínia, nos Estados Unidos, dirigido por Struve. Além de Drake e de Struve, esse grupo era formado por: Dana Atcheley, presidente da Microwave Associates; o bioquímico norte-americano Melvin Ellis Calvin (1911-1997; PNQ, 1961), que havia estudado a origem da vida; o astrônomo chinês-norte-americano Su Shu Huang (n.1915), especialista em planetas extrasolares; o médico, psicanalista, filósofo e escritor norte-americano John Cunningham Lilly (1915-2001), que havia publicado um polêmico livro no qual afirmou que os golfinhos são espécies inteligentes; os físicos, o norte-americano Philip Morrison (1915-2005) e o italiano Giuseppe Cocconi (1914-2008) que haviam publicado, em 1959 (Nature 184, p. 844), um artigo no qual propuseram as micro-ondas como meio para comunicações interestelares; o engenheiro eletrônico norte-americano Bernard M. Oliver (1919-1995), fundador e Vice-Presidente da Hewlett-Packard; o astrônomo norte-americano Carl Sagan (1934-1996); e J. P. T. Pearman, do Space Science Board of the National Academy of Sciences. Esse grupo ficou conhecido como: A Ordem dos Golfinhos (www.seti.housenet.org/seti_intro.html);  (www.planetary.org/explore/topics/seti/seti_history_06.html).

                   É oportuno destacar que foi nessa reunião que Drake apresentou sua equação – a hoje famosa Equação de Drake -, para calcular o número (N) de civilizações tecnologicamente avançadas nas galáxias e capazes de manter contato interestelar (Norvath, op. cit):

 

N = R*  fp  nT  fv  fi  fc  T,

 

onde: R* = número de estrelas do tipo solar formadas no tempo;  fp = fração das estrelas formadas que tem planetas; nT = número de planetas do tipo terrestre por estrela; fv = fração dos planetas que desenvolve efetivamente vida; fi = fração dos planetas com vida inteligente; fc = fração da vida inteligente que quer se comunicar; e  T = tempo de vida das civilizações avançadas. Como esses fatores não são obtidos com precisão, por razões de completo desconhecimento deles, são apenas estimados. Uma interessante estimativa deles é apresentada no livro póstumo de Carl Sagan [Variedades da Experiência Científica: Uma Visão Pessoal da Busca por Deus (Companhia das Letras, 2008)]. Depois de vários “chutes”, como ele próprio diz, chegou ao resultado de que o número de civilizações tecnológicas na galáxia seria um, isto é: N = 1. E concluiu: Onde ela está? Somos nós.