CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Filardo Bassalo
www.bassalo.com.br

Os Primeiros Calendários.

 

Em 46 a.C., o Imperador Romano Julius Caesar (100-44) encarregou o astrônomo egípcio Sosígenes de Alexandria (f.c.90 a.C.) – que acreditava que Mercúrio girava em torno do Sol – para reformar o Calendário (Latino) Romano. Assim, admitindo que o ano trópico [intervalo de tempo entre duas passagens sucessivas do Sol pelo equinócio (quando o Sol se encontra acima do equador) da Primavera ou Vernal] teria 365,25 dias, ele aconselhou o Imperador que o ano deveria ter apenas 365 dias. Como a fração de 0,25 dia somaria 1 (um) dia em cada 4 anos, ela deveria ser compensada com o acréscimo de um dia ao ano após cada 3 anos, que passaria, então, a ter 366 dias. Registre-se que essa ideia já havia sido considerada pelo astrônomo grego Eratóstenes de Cirena (c.276-c.196), por volta de 240 a.C. (o hoje conhecido ano bissexto, como veremos adiante), com o intuito de ajustar o Calendário Egípcio às estações.

                   Como a proposta de Sosígenes mostrava uma diferença de 10 dias em relação ao Calendário Romano (CR), que tinha apenas 355 dias, Julius Caesar determinou que esses dias fossem acrescentados aos vários meses do CR, da seguinte maneira: Janeiro, Sextilis e Dezembro ganharam dois dias, enquanto Junho, Setembro e Novembro ganhavam 1 (um) dia. Como Fevereiro era o último mês do ano, Julius Caesar decidiu, também, que o dia extra a ser acrescentado ao ano, de quatro (4) em quatro (4) anos, seria inserido nesse mês. No entanto, tendo Julius Caesar mandado colocar o dia extra entre o sétimo e sexto dias das Calendas de Março, isto é, entre 24 e 23 de Fevereiro, e não querendo alterar a ordem de contagem dos dias, o sexto (60) dia foi contado duas vezes; daí a origem do nome bissexto dado a esse dia e, posteriormente, aos anos de 366 dias.  

                   É interessante registrar que os romanos dividiam o mês em três partes: Calendas, Nonas e Idos. As Calendas correspondiam ao primeiro (10) dia do mês; os Idos eram o décimo-terceiro (130) dia, exceto em Março, Maio, Quintilius e Outubro quando eram o décimo-quinto (150) dia; as Nonas eram o oitavo (80) dia anterior ao dos Idos. Registre-se, também, que o sexto dia (60) para as Calendas de Março era um dia célebre em Roma, pois nele se realizava a festa da Regifuga, comemorando a fuga de Lucius Tarquinius Superbus (f.c. segunda metade do Século 6 a.C.), o sétimo (70) e último Rei de Roma, cujo reinado ocorreu em 534-510. Esse Calendário Juliano foi modificado por duas vezes: na primeira, por ordem do General e Cônsul Romano Marcus Antonius (c.81-30), quando o mês Quintilius passou a ser denominado de Julius (Julho) em homenagem a Julius Caesar; na segunda, por ordem do Senado Romano, o mês Sextilius passou a ser chamado de Augustus (Agosto) em homenagem a Caesar Augustus (63-14), o primeiro Imperador de Roma. No entanto, a fim de que Agosto não tivesse menos dias do que Julho (31) foi retirado um dia de Fevereiro e acrescentado a Agosto.

                   É oportuno observar que os romanos associaram os meses e os dias [em um ciclo de sete dias (semana)], aos sete astros celestes conhecidos que giravam em torno da Terra: Sol, Lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Assim, o primeiro dia é o Domingo (dies Solis, dia do Sol), Segunda-feira (dies Lunae, dia da Lua), Terça-feira [dia de Tyr, Deus Nórdico da Guerra / martedi, dia de Marte (Deus Romano da Guerra)], Quarta-feira [dia de Woden, Deus Supremo dos Nórdicos / mercoledi, dia de Mercúrio (Deus Romano dos Comerciantes), correspondente a Hermes (Deus Grego Mensageiro dos Deuses)], Quinta-feira [dia de Thor, Deus Nórdico do Trovão / Giovedi, dia de Júpiter (Deus Romano dos Céus), correspondente a Zeus (Deus Grego do Céu e do Tempo)], Sexta-feira (dia de Frigga, Deusa escandinava da fertilidade da terra) e Sábado [dies Saturni, dia de Saturno (Deus Romano da Plantação), correspondente a Cronus (Deus Grego da Agricultura)]. Observe-se que o termo feira vem da palavra latina feria, que significa “dia de descanso”, passando a ser adotado no ano de 563 da Era Cristã, após o Concílio da Igreja Católica realizada na cidade portuguesa de Braga. O Bispo de Martinho de Braga ( ? -579) decidiu que os nomes dos dias em homenagem aos deuses pagãos, deveriam, a partir do segundo até o sexto, serem conhecidos por Feira. Note-se que esse nome só é usado nos países de língua portuguesa.

                   Para os meses, os romanos deram os seguintes nomes: Janeiro (Janus, Deus do Início e do Fim), Fevereiro (Februalia, mês em que se realizavam festas de purificação religiosa), Março (Marte, Deus Romano da Guerra), Abril [de aperire, que em latim significa “aberto”, mês em que as flores abriam / de Vênus (Deusa Romana das Flores), correspondente a Afrodite (Deusa Grega do Amor)], Maio (Maia, Deusa do Crescimento das Plantas), Junho [Juno (Deusa Romana da Bondade ou da Juventude), esposa de Júpiter, correspondente a Hera (Deusa Grega)], Julho (devido a Julius Caesar, conforme vimos antes), Agosto (devido a Augustus, como também vimos acima), Setembro (septem, o sétimo mês), Outubro (octo, o oitavo mês), Novembro (novem, o nono mês) e Dezembro (decem, o décimo mês). Note-se que o mais antigo Calendário Latino tinha apenas dez meses.

                   Concluindo este verbete, é oportuno registrar que, em 24 de Fevereiro de 1582, o Papa Gregório XIII [Ugo Boncompagni (1502-1585)] editou a Bula Papal Inter Gravissimus, na qual há recomendações para a reforma do Calendário Juliano (CJ). No CJ havia três anos bissextos a mais em cada 385 anos, e, por isso, a ocorrência dos equinócios e solstícios [dia em que o Sol está mais afastado (norte ou sul) do equador] se afastava de suas datas tradicionais; por exemplo, a data do equinócio da Primavera determinava a Páscoa. Em vista disso, o Papa Gregório XIII solicitou ao astrônomo e médico italiano Luigi Lilio Ghiraldi ( ? -1576) [que foi auxiliado pelo matemático alemão o jesuíta Christophorus Clavius (1537-1612)], para fazer a reforma do CJ: nascia, assim, o Calendário Gregoriano (CG). Este foi construído da seguinte forma: a Quinta-feira, 04 de outubro de 1582 (CJ), foi seguida pela Sexta-feira, 15 de outubro de 1582 (CG). Desse modo, os anos bissextos passaram a ocorrer nos anos exatamente divisíveis por quatro (4), salvo os anos que terminam em 00, que devem ser divisíveis por 400, para que também fossem bissextos. Desse modo, por exemplo, os anos 1600 e 2000, são bissextos, diferentemente dos anos 1800 e 1900 que não o são. É interessante destacar que a origem da contagem dos anos no CG é o nascimento de Jesus Cristo, estabelecido por Dyonisius Egydius no ano 525. Esta data é também considerada a origem da Era Cristã, na qual os anos são contados pelo complemento A. D. (Anno Domini Ano do Senhor), ainda segundo Dyonisius. Note-se que alguns historiadores consideram o erudito inglês Beda, o Venerável (673-735) como sendo o introdutor dessa notação. Assim, segundo o CJ, o filho de Deus, Jesus Cristo nasceu em 1 A.D e morreu em 33 A.D. Contudo, hoje se sabe que Jesus Cristo nasceu em 4 a.C.  Mais detalhes sobre o tema tratado neste verbete, ver: José Maria Filardo Bassalo, Nascimentos da Física (3500 a.C.-1900 A.D. (EdUFPA, 1996); Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário de Símbolos (José Olympio, 2002);  e Orlando José Carvalho de Moura, A Medida do Tempo e sua Evolução, IN: Francisco Caruso (Editor), Diálogos Sobre o Tempo (Maluhy e Co./Fundação Minerva/Academia Paraense de Ciências (2010); e os verbetes da pt.wikipedia.org/wiki, para os dias da semana.