CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Filardo Bassalo
www.bassalo.com.br

As Irreverências de Landau.

 

Em alguns verbetes desta série, vimos as contribuições do físico russo Lev Davidovich Landau (1908-1968; PNF, 1962) para o desenvolvimento da Física, principalmente da superfluidez do hélio-4 (viscosidade nula dos fluidos) e do diamagnetismo, assim como aspectos de sua personalidade. Neste verbete, destacaremos algumas de suas irreverências. Por exemplo, segundo nos conta o físico austríaco Otto Robert Frisch (1904-1979) em seu livro What litlle I remember (Cambridge University Press, 1980), certa vez o físico germano-suíço-norte-americano Albert Einstein (1879-1955; PNF, 1921) ministrava uma palestra em um encontro realizado pela Sociedade Alemã de Física, em uma cidade na parte oriental da Alemanha. Depois de apresentar sua palestra, o mediador dirigiu-se ao público e perguntou se havia alguém que quisesse fazer alguma pergunta. Um jovem, no final do auditório, levantou-se e disse: - O que o Professor Einstein nos apresentou não parece tão estúpido. Contudo, a segunda equação não segue diretamente da primeira como ele afirmou. Ela necessita de uma hipótese que não foi provada e, portanto, a invariância alegada não é válida. Diante dessa afirmação, Einstein voltou-se para o quadro-negro, pensou, e voltando-se para o jovem questionador, disse-lhe: - O que o jovem afirmou é perfeitamente correto; a platéia deve esquecer tudo o que eu disse hoje. Esse jovem era Landau. Esse aspecto questionador e irreverente de Landau, ainda segundo Otto Frisch, aconteceu em uma das palestras ministradas pelo físico dinamarquês Niels Henrik David Bohr (1885-1962; PNF, 1922), no Instituto de Física Teórica, em Copenhagen, provavelmente nos primeiros meses de 1931. Landau, entediado com a fala de Bohr e permanecendo deitado de costas em sua carteira, começou a questionar o que Bohr falava, enquanto este procurava cuidadosamente mostrar o erro de Landau. Essa discussão entre esses dois gênios da Física deixou perplexa a audiência, por não ser normal esse tipo de comportamento em encontros científicos públicos. 

                   Outras irreverências de Landau estão registradas no livro Landau: o sábio que morreu 4 vezes (Edições Bloch, 1968), escrito pelo jornalista russo Alexander Dorozynski. Destaquemos algumas delas. Segundo Alexander, “era seu costume mostrar-se intransigente e mesmo agressivo sem qualquer motivo ou diante da mais inofensiva provocação. Na rua costumava abordar os transeuntes desconhecidos e lhes fazer perguntas como esta: - O senhor pode me dizer por que usa barba? E, em seguida desenvolvia, diante do atônito desconhecido, a sua teoria de que qualquer ornamento piloso não passava de afetações e futilidade que deviam ser suprimidas”.     

                   “Um dia, em plena Perspectiva Névski, a grande avenida ao longo do Rio Neva, seus amigos viram, de longe, formar-se um agrupamento em torno de Landau que, tranquilo, passeava com um enorme balão vermelho preso ao chapéu”. 

                   Seus amigos, perguntaram-lhe: “- Você ficou louco, Landau? Para que diabo esse balão? A resposta sibilina que receberam foi a de que, se ele (Landau) achava que devia passear pela Perspectiva Névski com um balão vermelho no chapéu, ninguém poderia impedi-lo disso.  Noutra ocasião, os amigos o surpreenderam sentado na calçada de uma rua central, lendo um livro e comendo rabanetes, indiferente aos olhares severos dos passantes, que achavam tal procedimento bastante insólito”. Quando seus amigos perguntaram-lhe o que estava fazendo, ele respondeu: “- É evidente que estou lendo e mastigando rabanetes”.

                   Via de regra, Landau não gostava de sair com moças. Seus amigos um dia lhe perguntaram a razão dessa atitude. Ele respondeu: “- Vocês compreendem: não acho de boa educação sair apenas com as moças bonitas. As feias se sentiriam humilhadas. Por outro lado, não me sinto bem ao lado de uma mulher feia. De maneira que a solução é evitar umas e outras”.

                   Concluindo este verbete, é oportuno registrar que outras irreverências de Landau se encontram nesse livro de Alexander, bem como em outros textos, como, por exemplo: Anna Livanova, Landau: A Great Physicist and Teacher (Pergamon Press, 1980).