CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Filardo Bassalo
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O Atomismo na Antiguidade.

 

A procura da substância primordial, do elemento comum, da matéria prima, enfim, - da arché (princípio, em grego) -, que compõe o Universo, começou há mais de 25 séculos com os gregos jônicos, os chamados pré-socráticos, isto é, aqueles que antecederam ao filósofo grego Sócrates de Atenas (c.470-399). Alguns deles apresentavam concepções unitárias (monistas) para a arché, enquanto outros, pluristas.

                   Assim, o filósofo grego Tales de Mileto (624-546) afirmava que o elemento primordial do Universo era a água, sobre a qual a Terra flutua e é o começo de todas as coisas, afirmação baseada em uma antiga ideia do poeta grego Homero [floresceu cerca (f.c.) Século 9 ou 8 a.C.], de que do deus Oceano se originavam todas as coisas. Contudo, para o filósofo grego Anaximandro de Mileto (610.c.547) tal elemento era mais indefinido do que a água de Tales, pois considerava ser o apeíron (infinito, em grego), baseado na ideia do poeta grego Hesíodo (f.c. 800 a.C.) para o qual tudo se originava do caos. Já para o filósofo grego Anaxímenes de Mileto (c.570-c.500) seria o ar o tal elemento primordial de vez que o mesmo se reduziria à água por simples compressão. No entanto, para o filósofo grego Xenófones de Jônia (Colofonte) (c.570-c.460) era a terra a matéria prima do Universo. Por fim, o filósofo grego Heráclito de Éfeso (c.540-c.480) propôs ser o fogo essa matéria universal. Note-se que, para o filósofo grego Empédocles de Akragas (atual Agrigento) (c.490-c.430) os elementos fundamentais da natureza eram em número de quatro: água, ar, fogo, terra, que se combinavam de várias maneiras para formar as substâncias. Porém, esses elementos eram colocados em constante movimento por intermédio do amor ou amizade (philia, em grego) que os unia, e do ódio ou inimizade (ekthros ou neikos, em grego), que os separava.   

                   Com a tomada da Jônia (atual Turquia) pelos persas, iniciada pelo Rei Ciro II, O Grande ( ? -526 a.C.), em 546 a.C., surge um novo movimento filosófico que tenta explicar a arché não como um elemento único, em um certo sentido “macroscópico” (água, ar, fogo, terra) mas como uma porção também única, porém subdividida “microscopicamente” da matéria. Assim é que para o filósofo grego Anaxágoras de Clazômenas (c.500-c.428) o Universo decorria da razão de uma ação abstrata sobre as homeomerias (“sementes”) que seriam as matérias primas constituintes de todas as espécies imagináveis. Contudo, elas seriam partículas diferentes, em número infinito que, do mesmo modo, continham outras “sementes”, e assim por diante ad infinitum.

                   Em contraposição a essa visão “panteísta” do Universo proposta por Anaxágoras, os filósofos gregos Leucipo de Mileto (c.460-c.370) e seu discípulo Demócrito de Abdera (c.470-c.380) apresentaram uma visão “monoteísta” segundo a qual todas as coisas do Universo são formadas por um único tipo de partícula – o átomo (indivisível, em grego) -, eterno e imperecível, que se movimentava no vazio. Entretanto, para explicar as diversas propriedades das substâncias, eles admitiam que os átomos diferissem geometricamente por sua forma e posição, e que, por serem infinitamente pequenos, só poderiam ser percebidos pela razão.

                   A formulação da concepção material do Universo quer monista, quer plurista, continuou ainda na Antiguidade. Com efeito, a concepção quaternária foi retomada pelo filósofo grego Aristóteles de Estagira (384-322), porém seus elementos fundamentais – os essenciais - eram: frio (tò psychrón), quente (tò thermón), úmido (tò hygrón) e seco (tò xerón) que, grupados, dois a dois, reproduziam os elementos de Empédocles da seguinte maneira: seco + frio = água, seco + quente = fogo, úmido + frio = água, e úmido + quente = ar. Registre-se que, para Aristóteles, os elementos úmido e seco eram passivos e tendiam a servir como “matéria”, e os elementos quente e frio eram ativos ou criativos e serviam como instrumentos de “forma” ou de “movimento”.  Porém, tais elementos comporiam apenas as coisas “terrenas” e “lunares”, sendo o espaço celeste formado pela quinta essência – o éter.

                   Ainda no mundo antigo, agora pós-socrático, a concepção atomística da matéria foi retomada pelo filósofo grego Epicuro de Samos (341-270) para quem: - Os átomos têm uma inconcebível variedade de formas, já que não poderiam nascer tantas variedades delas se essas formas fossem limitadas; eles (os átomos) se encontram eternamente em movimento contínuo e, além disso, se movem com igual velocidade quando se deslocam no vazio. Essas ideias revolucionárias de Epicuro sobre o atomismo, bem como às de toda a sua filosofia – o epicurismo (este, baseado na noção do prazer ligado ao exercício da virtude) – foram perpetuadas pelo filósofo e poeta romano Tito Caro Lucrécio (96-55) no célebre livro De Rerum Naturae (“Sobre a Natureza das Coisas”) (Éditions Garnier, 1954), publicado em 56 a.C. Neste livro, o atomismo foi escrito em hexâmetros e levados às últimas consequências, uma vez que Lucrécio acreditava serem todos os objetos da Natureza, até os materiais, como o corpo e a alma, constituídos de átomos.

                   É ainda oportuno salientar que a concepção atômica dos gregos antigos foi retomada pelos filósofos hindus, ainda na Antiguidade. Por exemplo, o filósofo hindu Kanada [Kanabhuj ou Kanablasksha (devorador de átomos, em sânscrito)] (f.c. Século 2 ou 1 a.C.) acreditava que os elementos primordiais do Universo eram manifestações da alma (atman) ou essência desse mesmo Universo, e que havia cinco elementos-manifestações que se ligavam aos sentidos, da seguinte maneira: éter-audição, ar-tato, fogo-visão, água-paladar e terra-olfato. Além disso, aos quatro elementos de Empédocles, Kanada acrescentou mais quatro: espaço, tempo, alma e manas, sendo que os dois primeiros constituíam a base do espaço no qual viviam e se movimentavam os corpos vivos, e que o manas seria a ligação do corpo com a alma. Ainda para Kanada, todos esses elementos primordiais da Natureza eram feitos de átomos indivisíveis e indestrutíveis.