CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Filardo Bassalo
www.bassalo.com.br

A Relação entre Einstein e Mileva.

 

Em verbetes desta série, vimos alguns aspectos inusitados da vida do físico germano-suíço-norte-americano Albert Einstein (1879-1955; PNF, 1921) e, neste verbete, vamos destacar sua relação, também inusitada, com sua primeira mulher, Mileva Maric (1875-1948), nascida de pais católicos na cidade de Titel, em Vojvodina, então na Hungria. Depois de estudar no Luitpold Gymnasium, em Munique, na Alemanha, e no Kantonsschule, em Aarau, na Suíça, em outubro de 1895, com dois anos menos do mínimo permitido, Einstein prestou exame de admissão para a Polytechnikum, em Zurique, também na Suíça, a famosa escola técnica, fundada em 1855 e que, em 1911, passou a ser chamada de Eidgenössische Technische Hochschule (ETH, “Escola Politécnica Federal”). Einstein foi aceito para fazer esses exames devido a alta recomendação de Adolf Sickenburger, seu professor de Matemática em Munique. Embora tenha obtido boas notas em Física e Matemática, ele foi reprovado em Biologia, Química e Francês. Em setembro de 1896 ele voltou a fazer o exame de admissão na ETH, desta vez foi aprovado com notas máximas em Matemática, Física, Canto e Violino, porém não foi bem em Francês. Em 27 de julho de 1900, Einstein formou-se em Ciências Físicas e Matemática, na ETH, com a média final de 54 pontos. Infelizmente, com apenas 44 pontos, Mileva não conseguiu sua aprovação. 

                   Foi na ETH que Einstein se apaixonou por Mileva, que era sua colega de turma. Em 1901, tiveram uma filha de nome Liesl (apelidada de Lieserl, que significa pequena Liesl), cujas referências a ela, por parte de Einstein e Mileva, terminaram em setembro de 1903. Segundo o físico e historiador da ciência, o brasileiro Jader Benuzzi Martins (n.1930), em seu livro Teoria da Relatividade: O Caminho de Lorentz/A Revolução de Einstein (Ciência Moderna, 2011), alguns historiadores indicam que Lieserl foi adotada por Helene Kaufler Savic, uma antiga amiga de Mileva desde 1899, e que, talvez, essa filha tenha morrido de escarlatina em 1903. Einstein e Mileva casaram-se no dia 06 de janeiro de 1903, e desse casamento, nasceram os filhos Hans Albert (1904-1973), engenheiro civil pela ETH, professor de Engenharia Hidráulica na Universidade da Califórnia, em Berkeley, e na Universidade de Iowa, e construtor das mais importantes barragens no mundo todo, e Eduard (1910-1965), que era muito talentoso para as artes, estudou psiquiatria na Universidade de Zurique e morreu confinado em um Hospital Psiquiátrico, em Burghölzli, na Suíça.

                   É interessante registrar que a paixão entre Einstein e Mileva pode ser constatada nas cartas que trocaram. Estas, escritas entre 1897 e 1903, foram organizadas por Jürgen Renn (n.1956) e Robert Schulmann (n.1942) e publicadas no livro intitulado Albert Einstein e Mileva Maric: Cartas de Amor (Papirus, 1992). Nessas cartas, quase sempre Einstein chamava sua namorada de Boneca, e começou a assinar apenas Albert, depois Albert Johnnie e depois apenas Johnnie. Em uma dessas cartas, provavelmente, em 28 de maio de 1901, Johnnie pergunta a sua Boneca, como “vai nosso filhinho”? Depois, em outras cinco cartas ele se refere a já Liersel, e manifestava sua preocupação com a sua criação. Na carta de 13 de novembro de 1901, Mileva (Boneca) pede que seu “querido e malvado amor” não falasse da Liersel com sua amiga Helene. Por fim, provavelmente, em 19 de setembro de 1903, “Johnnie” escreve a sua “Querida Boneca” que: - Lamento muito pelo que sucedeu a Liersel. É muito fácil sofrer sequelas da escarlatina. Creio que essas cartas parecem confirmar as informações contidas no livro de meu estimado amigo Jader. Quero aproveitar esta oportunidade para registrar que um exemplar desse livro me foi ofertado pelo meu saudoso amigo, o escritor brasileiro Haroldo Maranhão (1927-2004).   

                   A paixão entre Einstein e Mileva começou a se desgastar em virtude das várias viagens que Einstein fazia ao exterior, devido aos vários postos que assumiu. Com efeito, em 01 de abril de 1911, ele foi nomeado professor catedrático da Universidade Karl-Ferdinand, nomeação essa assinada por Franz Joseph (1830-1916), Imperador do Império Austro-húngaro. Segundo nos conta Martins (op. cit.), sozinha em Praga com os filhos, Mileva foi ficando cada vez mais depressiva e sombria, pois tinha ciúmes de Einstein com seus amigos e, principalmente da mãe de Einstein, Pauline Koch Einstein (1858-1920), que nunca aceitou esse casamento. Menos de um ano depois, em fevereiro de 1912, Einstein foi indicado professor da ETH e, em vista disso, ele e família foram para Zurique. Na primavera de 1913, Einstein recebeu uma oferta dos físicos alemães Max Karl Ernest Planck (1858-1947; PNF, 1918) e Walther Hermann Nerst (1864-1941; PNQ, 1920) para assumir uma posição na Universidade de Berlim, bem como ser membro da Academia Prussiana de Ciências, também em Berlim, cidade essa para onde foi em 07 de dezembro de 1913. Em junho de 1914, Einstein se separou de Mileva e, em consequência dessa separação, ela e filhos foram morar na casa do químico alemão Fritz Haber (1868-1934). Ao falar com Einstein sobre essa situação, Haber recebeu dele a incumbência de levar para a mulher um verdadeiro ultimato para ele voltar a viver com ela e filhos. Eis o ultimato (Martins, op. cit.):

            

                   CONDIÇÕES:

 

                   A. Você garantirá:

 

                         1- Que minhas roupas sejam mantidas em ordem;

                         2 – Que receberei três refeições regularmente, em meu quarto;

                         3 – Que meu quarto e meu escritório sejam mantidos em ordem e,  

                             sobretudo, que minha escrivaninha seja deixada apenas para meu uso.

                   B. Você renunciará a qualquer relacionamento pessoal comigo que não seja

                        completamente necessário por razões sociais. Especificamente, você se    

                        absterá de:

 

                         1 – Minha companhia em casa;

                         2 – Sair ou viajar comigo.

 

                   C – Você obedecerá aos seguintes pontos em seu relacionamento comigo:

 

                         1 – Não esperará nenhuma intimidade de mim, nem me censurará de

                               nenhum modo;

                         2 – Parará de falar comigo quando eu assim exigir;

                         3 – Deixará meu quarto ou meu escritório imediatamente, sem

                               protestar,  quando assim eu exigir.

 

                   D – Você aceitará não me hostilizar na presença de nossos filhos, nem com

                           palavras e nem com atitudes.  

 

                   Apesar dessa humilhação, Mileva aceitou os termos desse ultimato. Contudo a relação entre eles continuou cada vez mais insuportável, e culminou com o divórcio em 14 de fevereiro de 1919; ainda em 1919, no dia 02 de junho, Einstein casou-se com sua prima, também divorciada, Elsa Einstein Löwenthal (1876-1936). Em 10 de novembro de 1922, Einstein recebeu o Prêmio Nobel de Física de 1921, pela descoberta da lei do efeito fotoelétrico e por trabalhos em Física Teórica. Parte do Prêmio, de 32.250 dólares (121.572 coroas suecas), Einstein transferiu para Mileva, em 1923, que se encontrava em Zurique com os dois filhos, e o restante foi para uma conta num banco americano, com os juros destinados a Mileva, conforme o acordo que fez por ocasião da assinatura do divórcio. Com esse dinheiro, Mileva comprou três apartamentos em Zurique e os alugou. Ela morreu no dia 04 de agosto de 1948, em Zurique. (Martins, op. cit.).