CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Filardo Bassalo
www.bassalo.com.br

Einstein, Hollywood e Chaplin.

 

Neste verbete, vamos destacar alguns aspectos curiosos da amizade de dois grandes gênios: Einstein, o gênio da Física e o ator inglês-norte-americano Charles (“Charlie”) Spencer Chaplin (1889-1977), o gênio do Cinema Mudo. Para isso, usarei os seguintes textos: Isaías Golgher, O Universo Físico e Humano de Albert Einstein (Oficina de Livros, 1991); Abraham Pais, Einstein lived here (Clarendon Press/Oxford University Press, 1994); Andrew Robson (Organizador), Einstein: Os 100 anos da Teoria da Relatividade (Campus/Elsevier, 2005); Walter Isaacson, Einstein: sua Vida, seu Universo (Companhia das Letras, 2007); Jader Benuzzi Martins, Teoria da Relatividade: O Caminho de Lorentz/A Revolução de Einstein (Ciência Moderna, 2011).

                      O encontro de Einstein com Chaplin aconteceu da seguinte maneira. Einstein recebera do físico norte-americano Robert Andrews Millikan (1868-1953; PNF, 1923), então Reitor do California Institute of Technology (CALTECH), um convite para passar dois meses como pesquisador-visitante dessa instituição de pesquisa. Ele partiu da Alemanha em dezembro de 1930, na companhia de sua segunda esposa, sua prima Elsa Einstein Löwenthal (1876-1936), e de sua secretária Helen Dukas (1896-1982). Depois de visitar Nova York, o navio SS Belgenland em que viajava levou-o à California, onde atracou em San Diego, no dia 31 de dezembro de 1930. É interessante registrar que, nessa viagem da Alemanha para os Estados Unidos, Einstein e seu assistente o físico austríaco Walther Mayer (1887-1978), discutiram sobre o campo unificado que estavam elaborando, numa suíte do andar superior, tendo um marinheiro como guarda (The New York Times, 05/12/1930), o que resultou em alguns trabalhos que eles publicaram, no período 1931-1934, segundo vimos no item 2.8. Aliás, era comum Einstein ir de pijamas para a sala de jantar desse navio. (The New York Times, 01/01/1931).

                    Como Pasadena, onde se localiza o CALTECH, fica perto de Hollywood, Einstein foi fazer uma visita ao famoso Universal Studio, produtora dos filmes de Chaplin. Nesta ocasião, falou a um de seus diretores que gostaria de conhecer o lendário Carlitos (“The Tramp – O Vagabundo). Imediatamente seu anfitrião foi apanhar Chaplin e, juntos, almoçaram no restaurante da Universal. Desse encontro surgiu uma grande amizade entre os dois gênios, cujo início público aconteceu no dia 30 de janeiro de 1931, na estréia do célebre filme de Chaplin, Luzes da Cidade (“City Lights”). Quando Einstein e Chaplin, ambos de smoking, atravessaram o tapete vermelho da entrada do Los Angeles Theatre foram calorosamente aplaudidos por uma multidão de seus fãs - apesar de a polícia ameaçar com gás lacrimogêneo - e, segundo a lenda, Chaplin teria dito para Einstein: - Eles me aplaudem porque me entendem, e o aplaudem porque ninguém o entende. Quando Einstein perguntou para Chaplin qual o significado daquilo, Chaplin respondeu: - Nothing (“Nada”).

                   Outro detalhe curioso da estada de Einstein na Califórnia foi seu encontro com o escritor norte-americano Upton Sinclair (1878-1968), também amigo de Chaplin. Uma noite, depois de jantarem juntos, os jornais do dia seguinte insinuavam o encontro de três declarados “comunistas”. Esse fato levou o general norte-americano Amos A. Fried a escrever uma carta para Millikan, o anfitrião científico de Einstein na Califórnia, dizendo: - Protesto contra os americanos que, em nome de ciência, estão ajudando à incitação e ao sentimento de traição da juventude de nosso país e hospedando o Dr. Einstein. Millikan respondeu imediatamente ao general tecendo considerações sobre o uso que as pessoas faziam da imagem pública de Einstein e concluiu: - Einstein é um homem da melhor qualidade e caráter, que pode errar, mas não mais que o general ou eu mesmo.

                   Ainda no Los Angeles Theatre, uma noite, Einstein e sua mulher Elsa, acompanhada da secretaria Helen, foram convidados para assistir a um filme estrelado pela famosa atriz canadense-norte-americana Mary Pickford (Gladys Marie Smith) (1892-1979), amiga de Chaplin. No meio do filme, a projeção foi suspensa, as luzes se acenderam e ela se dirigiu para Einstein e disse: - Meu nome é Mary Pickford, desculpe perturbá-lo, mas desejo muito apertar suas mãos. Depois de ser cumprimentada por Einstein, ela voltou ao palco, e seguiu-se a complementação da projeção; enquanto isso Einstein vira-se para sua mulher e pergunta: - Quem é Mary Pickford? Observe-se que ela havia recebido o Oscar de 1930, como atriz principal do filme Coquette. É interessante destacar que nesse ano de 1930 a era do Cinema Mudo foi praticamente encerrada, sendo substituída pela era do Cinema Falado, graças à invenção do mesmo pelo engenheiro elétrico norte-americano Lee De Forrest (1873-1961), em 1919, ao inventar uma tira contendo a trilha sonora e acrescentada ao filme. O grande sucesso dessa nova tecnologia do cinema foi o filme O Cantor de Jazz (“The Jazz Singer”), dirigido pelo norte-americano Alan Crosland (1894-1936) e estrelado pelo ator e cantor norte-americano Asa Yoelson (Al Jolson) (1886-1960), em 1927. [Jack Challoner (Editor), 1001 Invenções que Mudaram o Mundo (sextante, 2010)].        

                   Concluindo este verbete sobre a passagem de Einstein pela California e seu encontro com Chaplin, ainda em 1931, é interessante destacar que Einstein e sua mulher Elsa, em um jantar na casa de Chaplin, tiveram oportunidade de conhecer a famosa atriz norte-americana Paulette (Pauline Marion) Goddard (Levy) (1910-1990) [que casou com Chaplin, em 1936, e contracenou com ele no filme O Grande Ditador (“The Great Dictator”), de 1940], o magnata norte-americano William Randolph Hearst (1863-1951), o revolucionador do jornalismo norte-americano, e Marion Davies (1897-1961), velha amiga de Chaplin. Por fim, registre-se que em seu livro My Autobiography (Penguin, 1964), Chaplin conta que quando visitava o casal Einstein, Elsa dizia que seu marido passava dias trancado em uma água-furtada do prédio onde o casal morava em Caputh, perto de Berlim, e que quando saía de seu tugúrio, sentava-se no piano, tocava algo e dizia: - Estou tendo uma grande ideia. Então voltava ao seu lugar de reflexão científica e só saía depois de terminar o trabalho que estava realizando. Para comer, pedia à sua mulher que colocasse os alimentos em uma bandeja e que a deixasse na frente da porta trancada