CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Filardo Bassalo
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Atomismo nas Idades: Média, Moderna e Primeiras Décadas da Idade Contemporânea (1789-1831).  

 

As concepções una e/ou plural sobre o Universo, formuladas na primeira dezena de séculos da Era Cristã (vide verbete nesta série), continuaram a ser defendidas e divulgadas pelos estudiosos durante a Idade Média [476 d.C.-1453 (conquista de Constantinopla pelos turcos otomanos e consequentemente a queda do Império Romano do Oriente], Moderna [1453-1789 (Revolução Francesa)] e Contemporânea (de 1789 até hoje). Por exemplo, o médico e alquimista suíço-alemão Philippus Aureolus Theophrastus Bombast von Honhnheim, conhecido como Paracelso (1493-1541) procurava justificar os quatro elementos propostos pelo filósofo grego Empédocles de Akragas (atual Agrigento) (c.490-c.430) ao divulgar no Ocidente, as ideias árabes sobre as qualidades e princípios de tais elementos. Por sua vez, o astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) em seu livro De Revolutionibus Orbium (“Das Revoluções dos Corpos Celestes”), publicado em 1543, falou da corporeidade dos átomos. Também atomista foi o físico e astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642), já que em seu livro Il Saggiatore (“O Ensaiador”), de 1623, considerava que os átomos ígneos (de calor) eram menos rápidos e, portanto, menos penetrantes do que os átomos luminosos (da luz). É oportuno salientar que, segundo o escritor italiano Pietro Redondi (n.1950), em seu livro Galileu Herético (Companhia das Letras, 1991), foi a defesa do atomismo por parte de Galileu a provável causa de seu processo pela Santa Inquisição, em 1633.  

                   A ideia de que o átomo era uma parte real, porém indivisível da matéria, parece haver sido proposta pelo filósofo e matemático francês Pierre Gassendi (1592-1655), no livro intitulado De vita, moribus, et doctrina Epicuri libri octo, publicado em 1647, quando afirmou que em cada corpo os átomos se reúnem em pequenos grupos, as moléculas, que é o diminutivo da palavra latina moles, que significa massa ou quantidade de matéria.

                   O atomismo real defendido por Gassendi, na França, logo foi aceito e divulgado na Inglaterra. Assim é que, o físico e químico inglês Roberto Boyle (1627-1691) e seu assistente, o físico inglês Robert Hooke (1635-1703) tornaram claro seu apoio às teorias atômicas para explicar as substâncias materiais. Por exemplo, Boyle em seu célebre livro The Sceptical Chymist (“O Químico Cético”), publicado em 1661, apresentou sua ideia segundo a qual os corpos eram constituídos por elementos que, para ele eram assim definidos: - Que entendo por elementos são certos corpos primitivos e simples, perfeitamente sem mistura, os quais não sendo formados de quaisquer certos corpos, nem uns dos outros, são on ingredientes dos quais todos os corpos perfeitamente misturados são feitos, e que podem finalmente ser analisados.

                   No entanto, o elemento boyleano não era o elemento químico que conhecemos hoje, uma vez que para ele a água (hoje: H2O) era um elemento quase puro, enquanto que o ouro, cobre, mercúrio e enxofre eram compostos químicos ou misturas.  É interessante registrar que o físico e matemático inglês Sir Isaac Newton (1642-1727) defendia e expunha suas ideias atomísticas em suas pesquisas sobre a Óptica, iniciadas em 1666, e reunidas em seu tratado intitulado Optics, or a Treatise of the Reflexions, Refractions, Inflexions and Colours of Light (“Óptica, ou um Tratado das Reflexões, Refrações, Inflexões e Cores da Luz”), publicado em 1704.     

                   O elemento boyleano incipiente foi cada vez mais sendo estudado e reformulado. Com efeito, o químico francês Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794) procurou separar os elementos dos compostos químicos e, baseado no princípio: - Cada elemento de um composto pesa menos do que o composto como um todo -, elaborou a primeira tabela contendo cerca de 30 elementos, apresentada em seu famoso Traité Elémentaire de Chimie (“Tratado Elementar de Química”), editado em 1789. A partir de então, novos elementos foram acrescentados a essa Tabela de Lavoisier em decorrência de novas descobertas e como uma nomenclatura geral, proposta pelo químico sueco Jöns Jakob Berzelius (1779-1848), em 1813 (Annals of Philosophy 2, p. 443) e 1814 (Annals of Philosophy 3, p. 51; 93; 144; 353), que usava as primeiras letras dos nomes gregos ou latinos desses elementos químicos, como, por exemplo: cobre – Cu (Cuprum, latino); ouro - Au (Aurum, latino); magnésio - Mg (Magnese, grego); fósforo - P (Phosphorus, grego); enxofre – S (Sulphur, latino), mercúrio – Hg (Hidrargirium, latino); prata – Ag (Argirium, latino) etc. Além disso, Berzelius descobriu novos elementos químicos, tais como: cério (Ce), em 1803 [em parceria com o químico sueco Wilhelm Hisinger (1766-1852) e, independentemente, pelo químico alemão Martin Heinrich Klaproth (1743-1817)]; selênio (Se), em 1817 (nome dado para homenagear a Lua, pois em latim, ela se chama Sellenius); e, em 1828, o tório (Th), nome dado para homenagear o deus nórdico Thor. Antes, em 1818, ele deu o nome de lítio (Li) (do grego Lithos, que significa “pedra”) ao elemento químico descoberto por seu aluno, o químico sueco Johan August Arfwedson (1792-1841), em 1817.

                   Note-se que outro aluno de Berzelius, o químico sueco Nils Sefström (1787-1845), em 1831, descobriu o vanádio (V), ao qual deu esse nome para homenagear a deusa nórdica do amor e da beleza, Vanadis (ou Freia). É oportuno registrar que esse elemento químico havia sido descoberto pelo mineralogista espanhol Andrés Del Rio (1764-1849), em 1801, que o denominou de “eritrônio”. Contudo, apesar desse feito, foi convencido por outros químicos que não havia descoberto nenhum novo elemento químico (Dicionário de Química, Texto Editora Lda., 2000).

                   Ainda sobre Berzelius, acrescente-se que ele isolou, pela primeira vez, o silício (Si), em 1823; o zircônio (Zr), em 1824 [este elemento havia sido descoberto por Klaproth, em 1789, no zircão ou zirconita (hoje, silicato de zircônio: ZrSiO4), que é um mineral de “cor dourada” (zargun, em árabe) e o nome foi dado pelo químico inglês Sir Humphry Davy (1778-1829), em 1808]; e o titânio (Ti), em 1825 [este elemento havia sido descoberto pelo mineralogista inglês William Gregor (1761-1817), em 1791, e, independentemente, por Klaproth, em 1795, no rutilo, um mineral de “cor vermelha” (rutilus, em latim), que o denominou de titânio, em 1796, para homenagear os Titãs, os deuses gigantes da mitologia grega]. É oportuno destacar que o trabalho de Berzelius também foi importante para elucidar os diversos compostos envolvendo novos elementos químicos descobertos nas duas últimas décadas do Século 18, como, por exemplo: o urânio (U) descoberto por Klaproth, em 1789, no mineral pechblenda (nome dado por ele para homenagear o planeta Urano que havia sido descoberto, em 1781). Também, em 1789, Klaproth isolou e denominou o telúrio (Te) [descoberto pelo mineralogista austríaco Franz Müller (1740-1825), em 1782]. Em 1790, o químico irlandês Adair Crawford (1748-1795) e, independentemente, o químico e médico escocês William Cruickshank ( ? – c.1811) notaram a presença de um mineral (hoje, estroncianita ou carbonato de estrôncio: SrCO3) nas minas da região de nome Strontian, em Argyleshire, na Escócia, com propriedades diferentes dos espatos pesados. Por sua vez, em 1793, o médico e químico escocês Thomas Charles Hope (1766-1844) confirmou a descoberta de Crawford e Cruickshank e deu o nome de strontites àquele mineral. O elemento químico principal desse mineral foi isolado pela primeira vez, em 1808, por Davy, ocasião em que deu o nome de estrôncio (strontium – Sr). Por fim, em 1797, o físico francês Louis Vauquelin (1763-1829), deu o nome de cromo (Cr) ao elemento químico encontrado no composto cromita (óxido duplo de ferro e cromo: FeCr2O4) por causa das cores vivas de seus compostos.