CURIOSIDADES DA FÍSICA
José Maria Filardo Bassalo
www.bassalo.com.br

Tentativa de Assassinato de Heisenberg Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

 

Em verbetes desta série, vimos que a Alemanha pretendia, em 1943, realizar seu possível Projeto Atômico (PA) na cidade de Hechingen, a partir de um reator nuclear que seria montado no depósito subterrâneo no Castelo de Haigerloch, sendo o físico alemão Werner Karl Heisenberg (1901-1976; PNF, 1932) um dos principais físicos (líder?) desse Projeto. Desde que Heisenberg esteve visitando os Estados Unidos, em 1939, participando de conversas sobre a fissão nuclear, é possível que a rede aliada do Serviço de Inteligência Internacional, começou a observar os trânsitos de Heisenberg pelos principais centros de pesquisa sobre esse novo campo da Física. Em 1942, logo que foi criado o Office of Strategic Services (OSS) (“Departamento de Serviços Estratégicos”) [precursora da Central Intelligence Agency (CIA) (“Agência Central de Inteligência”)], chefiado pelo General norte-americano William Joseph (“Will Bill”) Donavan (1883-1959), este começou a recrutar pessoas para realizar espionagem atômica. Um deles foi o talentoso norte-americano Morris (“Moe”) Berg (1902-1972), jogador (ex-apanhador de terceira linha do Boston Red Sox) e treinador de baseball, graduado na Universidade de Princeton, advogado, que falava muitas línguas e tinha conhecimento de Física. Dentre suas tarefas de espião, estava a de espionar os trabalhos de Heisenberg e do físico alemão, o Barão Carl Friedrich von Weizsäcker (1912-2007), sobre o PA e, no final, assassinar Heisenberg. [David C. Cassidy, Uncertainty: The Life and Science of Werner Heisenberg (H. W. Freeman and Company, 1991); Richard P. Brennan, Gigantes da Física: Uma História da Física Moderna Através de Oito Biografias (Jorge Zahar, 1998)].

                   Sobre essa tentativa de assassinato de Heisenberg, vou reproduzir (com algumas ênfases) alguns textos do livro do jornalista e escritor inglês John Cornwell (n.1940) e intitulado: Os Cientistas de Hitler: Ciência, Guerra e o Pacto com o Demônio (Imago, 2003). Vejamos esses textos: – Durante o onírico período de Haigerloch, antes do Natal de 1944, enquanto os britânicos e os americanos cruzavam a França lutando, e o Exercido Vermelho se aproximava inexoravelmente pelo leste, Heisenberg foi marcado por uma bizarra tentativa de assassinato pelo chefe do Projeto Manhattan, General Groves [Brigadeiro General norte-americano Leslie Groves (1896-1970)], usando os serviços do OSS. A ideia era mandar um agente chamado Morris (Moe) Berg à Suíça, onde Heisenberg estava programado para fazer uma conferência sobre física a 18 de dezembro, na presença de especialistas. Berg, posando de físico (na verdade muito pouco sabia do assunto), estaria armado com uma pistola. Se durante a conferência Heisenberg desse algum indício de que a Alemanha estava trabalhando numa bomba atômica, Berg, com risco da própria vida, devia atirar nele ali mesmo, na sala de conferência [Thomas Powers, Heisenberg´s War: The Secret History of the German Bomb (Da Capo Press, 1993)], Paul Scherer (sic!) [físico suíço Paul Hermann Scherrer (1890-1969)], que era o contato local da inteligência americana, informara o OSS sobre a viagem de Heisenberg e sabia da chegada de Berg. Também daria informação sobre os movimentos e as conversas de Heisenberg: mas não há indicação de que compreendia que Berg poderia tentar matar o físico. Entre as conversas comunicadas por Scherer ao OSS sobre essa visita estava a insistência de Heisenberg em que jamais tivera conhecimento de uma tentativa de tomar o Instituto de Física de Niels Bohr em Copenhague, mas salvara o centro com uma oportuna intervenção. Também disse a Scherer que Walther Gerlach (1899-1979), o diretor da divisão de física nuclear do Conselho de Pesquisa do Reich, sofrera um colapso nervoso.   

                   O seminário realizou-se na Universidade de Zurique, na Ramistrasse, às 4:15 da tarde. Não havia mais de vinte pessoas presentes, e o frio da sala era intenso. Berg sentou-se com Leo Martinuzzi, outro agente da OSS, a pistola no bolso.   

                   Ele descreve Heisenberg como parecendo um “irlandês”, com “olhos sinistros”. A conferência era sobre a matriz S – um tópico puramente matemático na física quântica, sem aplicações para bombas atômicas -, e Heisenberg a fez andando de um lado para o outro diante do quadro-negro, consultando de vez em quando suas anotações datilografadas. Quando acabou, seguiu-se uma animada discussão, que terminou por volta de 6:40. [É interessante destacar que, conforme vimos em verbete desta série, os artigos de Heisenberg sobre a matriz S foram enviados para o Japão em um submarino alemão e entregues ao físico japonês Yoshio Nishina (1890-1951)].

                   Encerrado o encontro, Berg conversou em particular com Scherer. Este lhe disse que Heisenberg trabalhava em raios cósmicos, não numa bomba atômica, e que o projeto tomaria aos alemães de dois a dez anos. A discussão dos dois também incluiu um vago plano para sequestrar ou “transplantar Heisenberg e família para os EUA” (Powers, op. cit.).     

                   Mais tarde, naquela semana, antes da partida de Heisenberg da Suíça, Scherer convidou um grupo de pessoas para jantar em sua casa, entre elas Heisenberg e Berg. O jantar foi cenário de várias conversas sobre a guerra, depois comunicadas por alguns dos presentes, incluindo o físico holandês Piet (Cornelis) Gugelot (1918-2005). Este se correspondeu nos últimos anos com o escritor Thomas Powers (n.1940) sobre o incidente, dizendo que ocorreu uma “discussão muito séria”, na qual Heisenberg foi contestado sobre as atrocidades nazistas contra os judeus na Holanda e na França. Ele negou qualquer conhecimento de tais fatos, mas fez a defesa, aludindo ao isolamento da Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, de que “quando se trancam pessoas entre quatro paredes e sem janelas elas ficam loucas”. Ao ser acusado de ser defensor do governo de Hitler, declarou que não era nazista, mas alemão. Ofereceu em seguida uma explicação de sua posição que ia permanecer coerente nos anos futuros: a ideia de Duas Guerras. Segundo Gugelot, ele disse que o verdadeiro problema era a Rússia, e só a Alemanha podia ser o baluarte entre ela e a civilização européia. Isso aparentemente agradou aos presentes, que eram suíços. Gugelot deixou a festa enojado nesse ponto, o que significa que perdeu outro diálogo importante, em que o físico (alemão) Gregor Wentzel (1898-1978) disse: - “Agora o senhor tem de admitir que a guerra está perdida”. Ao que Heisenberg respondeu: - “Sim, mas seria tão bom se houvéssemos vencido”.     

                   A observação ia marcá-lo como simpatizante nazista aos olhos de seus críticos do pós-guerra. Ironicamente, também foi anotada por Berg, cujos superiores a tomaram como uma indicação de que a Alemanha não tinha bomba atômica, porque Heisenberg evidentemente concordava que seu país perdera de fato a guerra.

                   No fim da noite, Berg, o antes potencial assassino, acompanhou Heisenberg pelas ruas desertas de Zurique até o hotel dele. Não discutiram física; mas Heisenberg lembraria que o jovem fez perguntas minuciosas sobre sua consideração pelo regime nazista. É interessante ressaltar que o escritor norte-americano Nicholas Dawidoff (n.1962) detalhou esse episódio em seu livro intitulado The Catcher Was a Spy: The Mysterious Life of Moe Berg (Vintage Books, 1994), segundo relata Brennan (op. cit.).