SEARA DA CIÊNCIA

CLONAGEM E CÉLULAS TRONCO, O QUE HÁ DE NOVO?
Prof. Marcus Vale - Seara da Ciência - UFC.


De quando em vez, a questão da clonagem humana volta à baila. Seja por algum novo avanço científico na área, seja por algum escândalo provocado por VIPs. Como essa questão é muito polêmica, resolvi dizer alguma coisa do que sei a respeito.

A clonagem de animais já não é mais uma novidade. Quanto à humana, não se tem notícia de que já se tenha conseguido isso. Mesmo assim, na remota hipótese de que essa tecnologia tenha sido desenvolvida com sucesso, possivelmente essa notícia estaria guardada a sete chaves, esperando um momento propício para ser revelado. 

Primeiro, deveríamos definir com clareza o que é um clone. Teoricamente, um clone é a cópia fiel de outro indivíduo, isto é, clone é um indivíduo que tem um material genético exatamente igual ao do indivíduo que lhe deu origem. Os embriões são criados pela junção de um óvulo e um espermatozoide (às vezes mais de um óvulo, gerando gêmeos). Assim, o núcleo dessa nova célula (embrião) contém o material genético que é a mistura dos genes da fêmea e do macho. A multiplicação dessa nova célula (célula tronco embrionária) dá origem a um grande número de outras células, todas com o mesmo material genético. A partir de determinado momento de seu processo de multiplicação, essas células começam a se diferenciar, isto é, a sofrer transformações em sua forma, função e composição, tornando-se tipos celulares especializados para dar origem a tecidos absolutamente diferentes uns dos outros que formarão os diversos órgãos do nosso corpo.

Considerando que todas tem o mesmo material genético, como podem, de repente, expressarem características morfológicas e funcionais diferentes uma das outras? O que desencadeia esse processo? O que se sabe é que cada uma delas bloqueia grupos de genes diferentes e libera a expressão de outros, tornando-as especializadas para formar os diversos tecidos do organismo.  Uma vez diferenciada, a célula não retorna mais a ser uma célula embrionária para se multiplicar e dar origem a outro ser, mesmo a despeito de possuir a totalidade dos genes desse ser.  

É bom esclarecer que estamos falando de mamíferos, pois os vegetais fazem clones de si mesmo. Algumas plantas, por exemplo, podem crescer a partir de um galho de outra. Animais inferiores como protozoários se multiplicam por simples divisão onde os novos seres tem o mesmo DNA. Até animais como o sapo já foram clonados nos idos dos anos 50. Pesquisadores desenvolveram uma técnica de implantar o núcleo de uma célula, no caso da pele, num óvulo em que o núcleo foi removido. Nesse ambiente do óvulo, o núcleo adquire propriedades de um núcleo de embrião e, assim se desenvolve em um novo sapo igualzinho ao sapo doador do núcleo de pele. Mas foi só muito tempo depois (1996) que isso foi desenvolvido em mamíferos. A ovelha Dolly ficou famosa por ser clone de outra ovelha.  Hoje já se sabe da clonagem de muitos outros animais. Entretanto, o sucesso ainda não é de 100%. Muitos clones não sobrevivem muito tempo e a maioria nem chega a nascer. Essa é uma das muitas razões pelas quais a clonagem de seres humanos não é bem aceita.

Por outro lado, ficou bem estabelecido que células tronco embrionárias, isto é, células  embrionárias com poucos ciclos de divisão, quando em contato com células de tecido já diferenciadas, acabam por se transformar nas células daquele tecido também. Esse fenômeno, obviamente, acabou por dar a ideia do uso dessas células tronco para recuperar tecidos lesados. Inicialmente, o objetivo era fazer células-tronco (CTs) embrionárias a partir dos embriões clonados e, então, utilizá-las para recuperar tecidos para curar doenças como Diabetes e Parkinson, por exemplo. Para isso era necessário fazer clones do indivíduo ainda na fase de embrião e guardá-los para um possível uso no futuro. É claro que isso acabou por originar nova discussão sobre a ética desse processo. Enquanto se discutia esse aspecto da questão, cientistas japoneses descobriram como regredir células de pele a células tronco embrionárias (reprogramação celular) e assim esquecer a polêmica da produção de clones. Esse feito rendeu a Shynia Yamanaka um Prêmio Nobel em 2012. Hoje a ciência é capaz de produzir CTs sem precisar de embriões e assim utilizá-las terapeuticamente. Na verdade, essa tecnologia ainda não está totalmente desenvolvida e, na prática, ainda não está sendo aplicada de rotina, mas trata-se de uma esperança para a cura de muitas doenças.


Clique na figura acima para ver uma animação simulando os processos descritos no texto.